Belém, Lisbon Revisited (2019)

A única forma de não cristalizar Lisboa e Portugal num cliché para consumo turístico de massas resumido a uma viagem de tuk-tuk dos monumentos dos Descobrimentos ao pastel de nata, ou do fado às praias ou à gastronomia - é acrescentar-lhe ficção.

Filas e filas de turistas para entrar na Torre de Belém e no Mosteiro dos Jerónimos. Belém está transformada em parque temático: a exposição do mundo português revisitada numa versão século XXI, com menos propaganda oficial e mais places to visit, sugeridos pelos motores de busca nos dispositivos móveis. As "atrações turísticas" incluem a visita à casa dos pastéis de nata e a sua prova obrigatória. Alexandre O"Neill bem dizia que "a aventura acaba sempre na pastelaria".

As extraordinárias aventuras dos portugueses dos séculos XIV/XV, com todas as suas inesgotáveis histórias de descobertas, encontros, prodígios, comércio, exploração, violência, escravatura, destruição, glória, derrota, devoção e dor, aqui recriadas num passeio de tuk-tuk com audiodescrição em inglês e chegada ao destino com ingestão do pastel, coberto de canela - a mesma canela que levou os portugueses desse tempo a partir em demanda das Índias.

"Não me temo de Castela/ D"onde guerra inda não soa, / Mas temo-me de Lisboa, / Que ao cheiro desta canela / O reino nos despovoa", escrevia Sá de Miranda.
A versão de folheto excursionista dessa demanda, sumariamente sumariada e açucarada, entretém hoje os milhares e milhares de visitantes que nos povoam o reino ao cheiro do marketing turístico.

E quem ousará ser um novo velho do Restelo para vir arengar contra essa gloriosa epopeia turística: "A que novos desastres determinas/ De levar estes reinos e esta gente? (...) Que promessas de reinos, e de minas/ D"ouro, que lhe farás tão facilmente?" Lisboa está na moda, é inegável, e Belém é um dos seus pontos de passagem obrigatórios.

À conta do turismo, neste momento a nossa única indústria realmente rentável e com escala (como referia António Mega Ferreira numa recente entrevista à Visão),a economia melhorou substancialmente. Há uma rede de benefícios concretos que geraram empregos e contribuíram para a melhoria da vida de muitas pessoas. Edifícios e equipamentos que estavam degradados têm sido recuperados e transformados. A vida urbana ganhou novas dinâmicas. Nem sempre melhores, nem sempre piores.

Vivo no centro de Lisboa, num edifício antigo. Quando para lá me mudei, no final dos anos noventa, não havia muita gente. A população residente era escassa e estava envelhecida, os filhos estavam a mudar para as periferias. Os prédios estavam a precisar de obras e havia muitas casas desabitadas. O comércio era residual. Mal havia cafés e lugares de convívio. Os que havia eram quase todos descuidados, decadentes e deprimentes. Sair à rua à noite era uma desolação e havia o risco de ser assaltado.
Com as inevitáveis exceções, o centro de Lisboa era isto. Não percebo o saudosismo de um tempo de suposta autenticidade urbana pré-turística com mais qualidade de vida. Essa imagem, para mim, não corresponde à realidade dessa época.

Hoje, quando saio à rua encontro dezenas e dezenas de pessoas. Turistas, a maioria deles, de muitas e diversas nacionalidades. Ouço falar línguas que não conheço, vejo novos e velhos, de diferentes classes económicas e sociais. Vê-se uma misturada geral de gente nas ruas e nos novos, diferentes e melhores cafés e esplanadas, que há por todo o lado e que estão abertos de dia e à noite. Há cada vez mais prédios recuperados e novas lojas e atividades.

Artistas de rua, músicos, dançarinos. Há também mais lojas de pechisbeque, vendedores de rua de bugigangas várias e também dealers e carteiristas.
O ambiente geral é movimentado, por vezes barulhento, mas pacífico, e há uma sensação geral de descontração e segurança.
Se sairmos dos centros turísticos (Baixa-Chiado e Belém), encontramos, evidentemente, menos turistas e mais população residente. Mas a pressão imobiliária é brutal em toda a cidade.

Se no centro turístico os moradores deram lugar aos alugueres turísticos tipo Airbnb, por toda a cidade o preço das casas disparou tornando impossível o seu aluguer ou compra pela generalidade da população. Este é o grande problema. E é necessário que a câmara municipal e o Estado intervenham com urgência para o minimizar.

Dos outros problemas que o turismo nos traz, identifico mais três que podem ser desafiadores: um ambiental; outro, ficcional; e um terceiro, existencial.

Primeiro, ambiental. A questão da mobilidade. É preciso diminuir drasticamente os transportes poluentes. Acima de todos, pela poluição que causam (e pelo lixo que vazam no mar): os cruzeiros. É preciso reavaliar com urgência a crescente entrada de cruzeiros no porto de Lisboa.

Segundo, ficcional. A única forma de não cristalizar Lisboa e Portugal numa caricatura de si próprios, um cliché para consumo turístico de massas resumido a uma viagem de tuk-tuk dos monumentos dos Descobrimentos ao pastel de nata, ou do fado às praias ou à gastronomia - é acrescentar-lhe ficção. Ou seja, nova mitologia, filmes, séries, literatura, arte, novos museus do presente e do passado, novas músicas, movimentos, periferias. Descentralização, diversificação, densificação das histórias, das ficções, das mitologias urbanas. Investimento na cultura, portanto.
Terceiro, ontológico. Lisboa, destino turístico. O estigma da disneyficação. Corremos o risco de em vez de uma cidade termos um parque temático de turistas a olhar para turistas.

Quanto ao parque temático, ver resposta anterior, acrescentemos-lhe novas experiências ficcionais (A Disney não tem parado de adquirir outra marcas). O resto (que é tudo) é o problema concreto da habitação que já referi (leis urgentes precisam-se) e o problema poético da habitação, que Ruy Belo glosou ("Oh as casas as casas as casas/ as casas nascem vivem e morrem").
No sentido filosófico e pessoano somos todos transeuntes, turistas. "Outra vez te revejo Lisboa e Tejo e tudo." Estamos sempre de passagem.

Se olharmos para os turistas nesta perspetiva, talvez eles nos incomodem menos.

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