Peregrinação interior

Deixem-me blasfemar: Johann Sebastian Bach é tido como o compositor de todos os tempos. Mas quando ouço Prélude de la Partita pour Violin nº 3 precedido de Pepa Nzac Gnon Ma vacilo. Estou a meter no mesmo saco Bach e um tema tradicional gabonês, interpretado por Elugu Ayong?! Sim, estou. Na música, descobrimos, desarmados, que Bach desenha uma melodia que se entrelaça na perfeição com os sons da selva africana, vozes, percussões, violoncelo, música, beleza e a dança do povo fang, do norte do Gabão, derrotando discursos das falsas superioridades civilizacionais. (Ouçam então Lambarena - Bach to Africa.)

Arrisquemos nova pauta, antes de retomar a partitura: numa altura em que se democratizou o gosto de viajar, a bagagem não tem lugar para a música - mais ainda quando o streaming quase derrotou o CD. A coisa boa da globalização (e do streaming) é o mundo todo num clique na internet.

Pode começar-se a viagem com Baaba Maal em Call to Prayer ou escutar em silêncio os ventos andinos de um Kyrie da Misa Criolla, tropeçar num casamento klezmer dos Muzsikás, percorrer os desertos sufis com o afegão Mohammad Rahim Khushnawaz ou o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, visitar os banhos do Istanbul Oriental Ensemble ou cair nos braços de Sheila Chandra e das vozes búlgaras em polifonia com António Zambujo e adormecer, por fim, ao som do violão de Ricardo Cobo.

Esta divagação não é para mostrar apressados saberes enciclopédicos. Num tempo em que nos impingem que quem é diferente (apenas por ser migrante, refugiado, asilado, estrangeiro) deve ficar algures esquecido no seu canto, talvez possamos reconhecer que estes sons nos levam antes em peregrinação. Elias Chacour, que é (num mundo de definições fechadas) palestiniano, árabe, cidadão israelita, cristão, disse-nos: "A palavra guerra significa em hebraico aproximar-se demasiado um do outro, a ponto de não se conseguir respirar. A paz significa afastar-se um pouco, para que eu possa respirar. Hoje, sufocamos." Podemos descobrir a música afastados apenas o suficiente para respirarmos.

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