Saramago

A notoriedade de José Saramago nas letras pátrias, e sobretudo nas europeias, dispensa-me do esforço de procurar a habitual perífrase, a servir de título a esta crónica, e capaz de tornar mais nítida, ou mais cativante, a personalidade--tema que desejo tratar aqui. "Saramago" sem mais, desligado da graça de baptismo, e de qualquer adereço que a acompanhe, bastará de facto para identificar quem com Fernando Pessoa representa a literatura portuguesa, e em termos idênticos àqueles em que Cristiano Ronaldo simboliza o futebol internacional. O ficcionista de Todos os Nomes foi de resto brindado por um apelido que regista tanto de bravio como de truculento, sublinhando dois dos traços mais genuínos do seu carácter.

Aquando da vinda a lume de Levantado do Chão, e com base nas fotografias que circulavam nos jornais, reconhecê-lo-ia eu, a almoçar num pequeno restaurante do Bairro Alto, a Primavera. O romancista encontrava-se sozinho, e ia comendo nessa civilizada lentidão dos camponeses que aproveitam a ceia para congeminar longa e serenamente sobre os trabalhos e os dias. Vestia uma camisa aos quadrados, e usava uma boina que julgo ter retirado antes de se sentar à mesa, indumentária em tudo correspondente ao período pós-revolucionário que se atravessava, e que talhava o estilo a que um amigo meu, classista e selectivo, chamava "vinho e petiscos". Achava-se distante ainda a época em que o vestuário do proletariado cederia lugar ao uniforme mais recente, impossibilitando a destrinça entre letrado, político e homem de negócios, e ao qual José Saramago, consagrado entretanto, acabaria por aderir.

Em 1985 um júri nomeado pela Associação Portuguesa de Escritores atribuir-me-ia o Grande Prémio de Romance e Novela, instituído pela mesma, e distinguindo o meu livro Amadeo, quando me apaixonara já, e perdidamente, por Memorial do Convento. Saramago era na altura o principal favorito ao galardão com O Ano da Morte de Ricardo Reis, e sem demora o caldo ficaria entornado. Não faltaria quem logo equiparasse o meu texto ao volumezinho de versos, crismado de Romaria, e de que era autor um no-name boy, que décadas antes alcançara o primeiro lugar num concurso do Secretariado de Propaganda Nacional, preterindo escandalosamente a Mensagem, de Fernando Pessoa. No calor da defesa do que não vencera principiei então a receber arreliantes telefonemas anónimos, e às três ou quatro da manhã, insultando-me de variadas coisas, e acusando-me antecipadamente de desvergonha, se acaso me atrevesse a receber o troféu, e o cheque que lhe estaria apenso. Fui porém a Tróia, empunhei a estatueta, empochei o dinheiro, e confessei publicamente que muito gostaria de poder contar com José Saramago ali, e a meu lado. Impõe--se todavia aduzir que ele próprio, o ilustre novelista, me enviaria de imediato uma generosa e magnânima carta, verberando o comportamento de quantos a horas pouco cristãs me haviam desfeiteado pelo auscultador.

Encontrava-me eu com ele mais tarde na Feira de Frankfurt, integrados numa dessas levas de lusófonos, e subsidiados pelo Estado no período das vacas gordas, quando anunciaram que o Nobel lhe fora concedido. Acorremos a abraçá-lo, e apesar do muro de colegas e leitores que o saudavam, consegui entregar--lhe uma rosa vermelha, isto porque cravos revolucionários dificilmente se compram na cidade--escritório da Europa. E nessa noite, reunindo alguns do nosso ofício num jantarzinho alemão, Agustina Bessa-Luís teve o gesto lindíssimo de mandar abrir uma garrafa de Don Perignon, homenageando assim o triunfador que porventura haverá morrido sem que esta nobre delicadeza lhe chegasse ao conhecimento.

Ao passar agora defronte da Casa dos Bicos, reparo na oliveirinha que protege as cinzas do inesquecível prosador, e felicito-o em silêncio por ter escapado tão habilmente aos monumentais esplendores do Panteão Nacional. Rezo pois para que a terra lhe seja leve, suspeitando de que o será por certo, e muito mais do que os mármores dos sarcófagos da Igreja de Santa Engrácia.

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