Não sabe/Não responde

Nas semanas que antecederam as eleições para o Parlamento Europeu, fosse nos jornais, fosse na rádio ou na televisão, não houve cronista, político ou comentador que não apelasse ao voto. Muitos fizeram-no até num tom pedagógico, referindo-se a um direito que custou muito a conquistar, tentando arrancar da mais profunda letargia milhares de jovens que, tendo atingido a idade de ir às urnas, não se identificam com os partidos existentes, mas também nada fazem pela criação de movimentos alternativos ou de protesto. As constantes chamadas de atenção não serviram, porém, de muito: se uma sondagem alertara para o facto de só 3% (!) dos jovens portugueses estarem certos de ir votar, os resultados vieram mostrar que esses números não andavam longe da verdade.

Pode pensar-se que os eleitores mais novos se abstiveram porque o dia estava perfeito para uma ida à praia (e estava) e também porque não se tratava de eleições nacionais - e a Europa, para quem nunca teve de viver sem ela, é um território abstracto. Mas não é verdade: já nas vésperas das eleições presidenciais, uma mão-cheia de rapazes e raparigas de 18 anos confessava a este mesmo jornal desconhecer quem eram os candidatos (incluindo o professor Marcelo) e oferecia as mais variadas desculpas para não ir votar: ter muito que estudar, estar a viver longe de casa, não perceber nada de política e ter medo de fazer asneira, não estar a par, ter pouca informação..., enfim, a verdade é que uma parte significativa da juventude portuguesa prefere manter-se na ignorância a inteirar-se para poder intervir responsavelmente nos destinos do país.

Há quem diga que a culpa não é deles porque, quando as causas os galvanizam, até os menores põem a cabeça de fora, como aconteceu recentemente com a chamada "greve climática", muitíssimo concorrida. Resta saber se a afluência seria a mesma se a manifestação tivesse ocorrido num domingo de sol e quantos desses activistas se recusam, por exemplo, a comer em cadeias de fast food ou baniram a carne de vaca da sua alimentação, duas coisas fundamentais para quem luta pela protecção do ambiente. Mas talvez seja melhor não perguntar...

Dante escreveu que, no Inferno, os lugares mais quentes estão reservados aos que escolhem a neutralidade em momentos de crise - e é em crise que a Europa se encontra. Parece-me, pois, que os nossos jovens, com praia ou sem ela, vão acabar bastante queimados. E muitos dos seus pais também. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia.