O poder da informação

1. Mudam-se os tempos, muda o nosso entendimento sobre as consequências sociais do desenvolvimento das tecnologias da informação. Em tempos e locais mais igualitários, prósperos e democráticos, predominou a esperança num mundo novo com mais lazer e mais participação. Em tempos de crescimento das desigualdades, de crise económica e de perda de confiança nas instituições da democracia, cresceu o receio de um futuro sem empregos e de manipulação e controlo orwellianos. Com a recente polémica em torno do papel do Facebook e outras redes sociais na manipulação de atos eleitorais, as visões pessimistas sobre o futuro viram-se reforçadas.

2. E, no entanto, as visões mais otimistas de outros tempos não estavam totalmente erradas. Elas não correspondiam a um futuro já escrito e inevitável mas representavam uma hipótese real de mudança social. Tudo dependeria, porém, do modo como os novos recursos tecnológicos fossem controlados e usados. O problema que hoje temos com o Facebook é, em grande parte, o resultado da enorme acumulação de poder numa única empresa que por isso se pode furtar aos necessários controlos regulatórios políticos e sociais da sua atividade. O problema não é tecnológico, é, em primeiro lugar, político e social.

3. No seu último livro, Robert Reich argumenta que, nos EUA, as leis antimonopólio tiveram origem na preocupação dos pais fundadores da democracia norte-americana com a acumulação de poder económico. Mais do que salvaguardar a concorrência, argumenta Reich, as leis antimonopólio visavam impedir o aparecimento de agentes económicos com poder para competir com os decisores políticos democraticamente eleitos. Estes tinham o seu poder limitado por um complexo sistema de equilíbrios de poderes e contrapoderes, ausentes do domínio da economia. Ou seja, argumenta Reich, os pais fundadores da democracia na América entediam que a salvaguarda da democracia e a possibilidade de controlo coletivo do nosso futuro comum requeriam que se contrariasse, ativamente, a acumulação de poder económico num número reduzido de agentes e empresas.

4. Hoje, Google e Facebook controlam 73% do valor mundial da publicidade online, percentagem que sobe para 84% se não contarmos com o mercado chinês. Esse controlo é o resultado da capacidade daquelas empresas para vigiarem o nosso comportamento na net e para se apropriarem do máximo de dados sobre cada um dos seus utilizadores. Vigilância e coleta de dados permitem-lhes, depois, identificar perfis de utilizadores e de mensagens, em princípio publicitárias, com enorme precisão. Ou seja, hoje, como nunca no passado, dispomos das bases tecnológicas de exercício do totalitarismo, com a colaboração ativa e despreocupada daqueles que são diariamente vigiados e manipulados.

5. Não podemos continuar a usar os argumentos do mérito para tolerar e louvar a acumulação de poder de base económica das muito grandes empresas globais. O mérito dos resultados da atividade económica nada nos diz sobre a bondade ou desejabilidade social do uso desses resultados. Os governos democráticos têm uma obrigação fundamental: garantir o controlo dos poderes que, exercidos sem limites, retiram sentido à ideia de que fazemos escolhas reais sobre o nosso futuro individual e coletivo. Google e Facebook só são uma ameaça à democracia porque os governos das democracias desistiram de limitar o seu poder económico.

6. Se aos governos compete a limitação política dos poderes económicos, aos cidadãos em geral cabe a responsabilidade da ação coletiva para o controlo social do uso das novas tecnologias. É obrigação de todos nós contrariar o uso trumpista generalizado das redes sociais para ultrapassar a desejável censura social da má-criação, hoje designada como incorreção política, da falta de autocontrolo emocional, disfarçado de autenticidade, ou da mentira pura e simples. Não apenas no plano individual, mas também no dos agentes coletivos que sustentam a nossa participação na vida coletiva, sejam partidos, sindicatos ou associações com os mais variados objetivos. E compete aos meios de comunicação tradicionais, jornais, rádios ou televisões, uma escolha simples: legitimarem, como é infelizmente mais frequente do que o tolerável, aquele uso das redes sociais, e serem amanhã trucidados pela ampliação do poder dos que desvalorizam a liberdade, ou constituírem-se como referência das boas práticas comunicacionais numa sociedade decente.

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