Catalunha

1 É com um certo alívio que olho para este desfecho, mesmo que transitório, da situação da Catalunha. Talvez a fuga de Puigdemont para a Bélgica seja neste momento a melhor solução para esvaziar tensões e evitar uma escalada da violência. E, por isso, tendo a reconhecer que há algum sentido de responsabilidade nesta "saída de sendeiro". Foi dos poucos gestos sensatos num processo independentista de meses que tinha todos os ingredientes para correr mal, por nele se somarem decisões absurdas de um lado e de outro da barricada.

2 Ao governo de Madrid, de nada serviu o exemplo relativamente recente da Escócia. Na resposta do governo do Reino Unido aos impulsos independentistas da Escócia acabou por prevalecer uma vontade de negociar e de integrar, tendo-se procurado soluções com base nas regras do jogo democrático que incluíram as iniciativas jurídicas necessárias para que ali o referendo se pudesse realizar. Pelo contrário, em Madrid parecem ter despertado todos os demónios do exercício do poder por dominação autoritária que não apenas bloquearam os espaços de negociação como desencadearam cenas de violência dispensável. As respostas de Madrid, incluindo a intervenção do rei, foram quase sempre desastrosas, oscilando entre a afirmação burocrática da legalidade e o radicalismo nacionalista de sinal contrário. E esta é talvez a questão. O nacionalismo contém em si os ingredientes da violência. Acaba sempre numa afirmação identitária contra "outros" constituídos como inimigos.

3 A reação de Madrid conseguiu, em alguns momentos, suscitar simpatia pela causa independentista da Catalunha. No contexto da resposta autoritária do governo central a independência foi vista como um movimento de libertação. Porém, na Europa democrática de hoje, as reivindicações independentistas não são respostas a uma qualquer opressão de tipo colonial. Em estados plurinacionais, como Espanha, Itália ou Bélgica, o nacionalismo e as reivindicações de aprofundamento da autonomia regional são, mais frequentemente, alimentadas por interesses egoístas. A afirmação identitária nacionalista serve demasiadas vezes para reforçar o poder económico das regiões mais ricas, numa lógica que a distingue pouco dos afrontamentos nacionalistas do Norte contra os "povos preguiçosos" do Sul da Europa.

4 A afirmação nacionalista, mesmo quando justa, gera identidades concorrentes e irredutíveis entre si, de exclusão mútua, de redução do pluralismo cultural, de empobrecimento das próprias identidades. Esse é, muitas vezes, o preço a pagar pela libertação da opressão. Mas quando não é isso que está em causa, quando o nacionalismo identitário não é a reação necessária à opressão, fica apenas a violência, a exclusão e o fechamento. Uma Catalunha independente construída hoje contra Espanha seria sempre uma nação menos plural e cosmopolita em que predominariam, sobretudo na fase de consolidação do novo Estado, processos sectários de fechamento comunitarista. Mas seria também um perigoso indutor de dinâmicas semelhantes do outro lado da barricada. Basta recordar as imagens da ação violenta dos militantes espanhóis da extrema-direita em Barcelona para perceber que os nacionalismos se alimentam mutuamente. À afirmação identitária da minoria catalã contra Espanha tenderá a responder um renascido nacionalismo dominador da extrema-direita espanhola. Nomeadamente nos dias que correm, de afirmação, um pouco por todo o lado, dos movimentos nacionalistas de extrema-direita. Um verdadeiro jogo de soma negativa.

5 Afirmam agora alguns que a culpa é, para não variar, da Europa. Da Europa que teria falhado no processo de afirmação das regiões. Convém recordar que a possibilidade de construção de uma Europa das regiões, leia-se, das nações coexistindo dentro de vários Estados plurinacionais, comportaria riscos maiores de fragmentação e de governabilidade, que apenas poderiam ser compensados com mais Europa e mais integração. Construir um espaço comum alargado a partir de uma realidade política mais fragmentada e com mais fechamentos comunitaristas só seria possível com mais federalismo. Ou seja, uma Europa das regiões sem uns Estados Unidos da Europa seria o caminho mais curto para uma nova balcanização do continente. Por isso, talvez continue a ser mais prudente uma Europa dos Estados nacionais.

6 Não é por ser ilegal que a causa da independência da Catalunha não é justa. A independência dos EUA, como muitas outras independências do passado, foi ilegal e justa. Por isso, a resposta de Madrid às reivindicações separatistas da Catalunha é burocrática e ineficaz. Faltou capacidade para negociar com o objetivo de transformar reivindicações independentistas em ganhos de autonomia. Faltou capacidade para canalizar melhor reivindicações identitárias, talvez legítimas. Mas também não é por ser, porventura, legítima que a causa da Catalunha é justa. A afirmação nacionalista catalã poderá dar resposta a reivindicações legítimas de reconhecimento identitário, mas não creio que contribua para construir um mundo mais decente. Na melhor das hipóteses contribuirá para mais fechamento e menos pluralismo. Na pior das hipóteses abrirá caminho a um combate entre identidades assassinas, para recuperar a boa mas assustadora expressão de Amin Maalouf.

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