A vida privada das crianças como espetáculo

1- O debate sobre o programa Supernanny, que chegou a Portugal por decisão da SIC, tem sido particularmente intenso. E ainda bem, pois as questões levantadas pela sua exibição são graves. Tão graves que seria civicamente irresponsável a falta de pronunciamento público sobre o atual objeto da discórdia pública.

2- O programa em causa não é um programa de informação, mas um espetáculo televisivo. Um espetáculo em que é dado um passo mais na violação das fronteiras entre o público e o privado. Não podemos esquecer que estas fronteiras foram e são fundamentais para garantir a liberdade e a autonomia individuais nas sociedades modernas. As pressões para a sua diluição têm sido sistemáticas nos últimos anos e não é apenas o resultado da ação de agentes mais poderosos que usam o seu poder para o impor aos que estão empenhados na sua preservação. Não, nesta erosão de fronteiras entre o público e o privado participam alegremente muitas pessoas em convergência com meios de comunicação e outras entidades coletivas, ou mesmo nas suas relações interpessoais através das redes sociais.

3- Já muitos de nós teremos dito, ao verificar como alguns exibem sem pudor a sua privacidade, qualquer coisa do género "estás a pôr-te a jeito, depois não te queixes". Ou seja, e ignorando agora as consequências coletivas daquelas exibições, a reação comum a quem as pratica supõe que cada um acaba por arcar com as responsabilidades da sua escolha. Portanto, se querem...

4- O problema é que as crianças, despudoradamente exibidas na sua intimidade filmada e transmitida num espetáculo televisivo, não escolheram este caminho nem têm idade para o fazer. Podemos aceitar que os pais têm o direito de fazer essa escolha pelos filhos? Não, os pais não têm o direito de escolher o que quiserem pelos filhos. Nomeadamente, não têm o direito de escolher exibir publicamente a sua privacidade. Pelo contrário, têm o dever de a proteger.

5- Convém sublinhar o que está em causa. E o que está em causa não é a exibição dos filhos, por exemplo, num espetáculo público, onde poderão fazer uma qualquer demonstração das suas capacidades. O que está em causa é a exibição do espaço de intimidade dos menores. A gravação e exibição dos seus comportamentos nesse espaço. Faz mal à criança essa exibição? Dependerá muito de cada caso, mas o risco de tal acontecer é demasiado elevado para que alguém com um mínimo de responsabilidade possa decidir corrê-lo. E faz certamente mal aos direitos das crianças a possibilidade de os pais poderem decidir exibir publicamente o seu comportamento privado. E faz ainda pior a possibilidade de os pais poderem vender o direito das crianças à proteção da sua vida privada. Bem como a possibilidade de haver quem tal possa legalmente comprar.

6- Os pais têm problemas, diz-se, que não sabem resolver. Porém, não é para resolver esses problemas que o programa existe. Para ajudar os pais a resolver eventuais problemas educativos existem hoje dezenas de instituições e especialistas que o fazem sem causar danos colaterais. A SIC entende que esses recursos são pouco conhecidos? Pode divulgá-los. Pode fazer um programa informativo sobre o assunto. Pode fazer tudo isso sem usar o comportamento privado das crianças como espetáculo. Sem transformar choros, birras e castigos em divertimento público. Porque isso é o que o programa verdadeiramente faz: comprar o direito a exibir o sofrimento privado, em transformar esse sofrimento em espetáculo, em particular o sofrimento de crianças sem idade de consentimento.

7- Para mais, concretiza esse espetáculo com poucas preocupações de rigor pedagógico. Como já foi dito por Bárbara Wong, se tem problemas em casa com as crianças que não consegue resolver sem ajuda, por favor, não chame a Supernanny. Há muitos profissionais que o podem fazer melhor. Não aceite as receitas simplistas ou os passes de mágica de uma personagem televisiva. Nem os diagnósticos exagerados, as imposições arbitrárias ou as propostas insensíveis. Educar uma criança não é um trabalho de adestramento.

8- E, por fim, não acredite que as birras por causa da sopa, por exemplo, são um problema fundamental que põe em causa a autoridade parental e a disciplina da criança. Leia antes, ou releia, a Mafalda.

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