Timor e Indonésia, o contrário do óbvio

O título do editorial do Jakarta Post no aniversário dos 20 anos do referendo em Timor diz tudo: "O nosso bom vizinho." Aproveitando a efeméride dessa votação de 30 de agosto de 1999 (quase 80% a favor da independência), o jornal indonésio fazia uma avaliação crítica do período de ocupação e em especial da repressão nos dias após se saber o resultado do referendo, mas sobretudo enfatizava a boa relação entre a Indonésia e Timor hoje existente. E a provar essa admirável reconciliação surgiu entretanto o vídeo de B.J. Habibie moribundo a ser abraçado por Xanana Gusmão, com carinho evidente entre eles, um o presidente indonésio que permitiu a autodeterminação da antiga colónia portuguesa no Pacífico, o outro o primeiro presidente de Timor.

Há alguns meses, entrevistei Sukehiro Hasegawa, diplomata japonês que foi chefe da missão da ONU em Díli. Falou-me da difícil reconstrução de Timor depois de 24 anos de ocupação indonésia e da extrema violência das milícias integracionistas manipuladas pelos generais de Jacarta, mais imperialistas do que a classe política, sobretudo depois da queda de Suharto. E da conversa saiu o título: "Devemos reconhecer a vontade da Indonésia de aceitar Timor porque podia ter sabotado a independência."

Confesso que a opinião do diplomata japonês me surpreendeu. É evidente que a relação entre Portugal e a Indonésia é hoje boa, com grandes referências aos contactos históricos desde o século XVI e a legados como o catolicismo nas Flores ou as muitas palavras no bahasa, a língua oficial (queijo é keju, boneca é boneka, explicou-me um dia o embaixador indonésio em Lisboa). Mas sobre a relação entre Jacarta e Díli sempre admiti sobreviver algum ressentimento da parte dos indonésios e até receio legítimo de que o sucesso de Timor incentivasse outros separatismos no imenso arquipélago de 260 milhões de habitantes.

Comecei como jornalista no DN em 1992, um ano depois de o massacre no cemitério de Santa Cruz ter reposto Timor na atualidade internacional. Mesmo assim, admita-se, poucos na época acreditavam que um dia o território poderia deixar de ser a 27.ª província da Indonésia, apesar de o ativismo da diplomacia portuguesa travar o reconhecimento pela maioria dos países, para grande irritação de Jacarta. Recordo-me da agitação gerada pela notícia da captura de Xanana, então chefe guerrilheiro, recordo-me também de ver Ramos-Horta visitar a redação para conversar com Carlos Albino, o jornalista mais atento ao que se passava a nível diplomático em torno do dossiê Timor. E um dia memorável no jornal foi o do Nobel da Paz para Ramos-Horta e o bispo Ximenes Belo, em 1996, com o diretor Mário Bettencourt Resendes emocionado à imagem de todos nós.

Antes de escrever esta análise, telefonei a João Pedro Fonseca, agora jornalista da Lusa. Durante anos, foi o nosso enviado especial a Timor - umas dez vezes lá esteve. Confirmou-me que outro jornalista do DN, José António Santos, teve antes dele acesso a Xanana na prisão em Jacarta. Mas depois foi ele a entrevistar Xanana no início de 1999, assim como foi ele a acompanhar o desembarque da força multinacional (Interfet) que parou a violência e permitiu preparar a declaração de independência de maio de 2002.

Foi a crise económica que levou ao fim de Suharto, o presidente que em dezembro de 1975, coordenado com Gerald Ford e Henry Kissinger, mandou anexar Timor. A Fretilin tinha aproveitado o 25 de Abril em Portugal para controlar a colónia e a América não podia tolerar um novo país comunista meses depois da vitória militar do Vietname do Norte.

Engenheiro formado na Alemanha, Habibie era o vice de Suharto e assumiu a presidência. Mostrou-se adepto da democracia e não tinha Timor como obsessão, sobretudo quando a prioridade era recuperar a economia. Mesmo assim, o embaixador Fernando Neves, num recente livro de Bárbara Reis, jornalista do Público, admite que a proposta do referendo pelos indonésios foi surpreendente, mas bem aproveitada pela nossa diplomacia. Talvez Jacarta acreditasse que na hora do voto valeriam mais as vantagens de integrar uma potência do que as diferenças culturais (Indonésia de maioria muçulmana, Timor católico) ou a revolta pelas cem mil mortes desde 1975.

Se o referendo foi um sucesso, festejado em Portugal, com o presidente Jorge Sampaio e o primeiro-ministro António Guterres magistrais na arte de seduzir a CNN e a ONU, já as semanas seguintes mostraram-se terríveis e foi preciso o mundo agir. Sabe-se que Bill Clinton falou com Habibie, mas decisiva foi a conversa do almirante Dennis Blair, chefe das forças americanas no Pacífico, com o general Wiranto, ministro da Defesa. Já não havia Guerra Fria, o mundo em 1999 não era o de 1975, Clinton não era Ford, Jacarta tinha de ceder. Este quase ultimato foi a 12 de setembro, e a Interfet desembarcou dias depois, liderada pelo general Peter Cosgrove, mais tarde governador-geral da Austrália. Também Camberra, com John Howard como primeiro-ministro, estava agora entre os que defendiam o direito de Timor a seguir o seu caminho.

Só mais um episódio ligado ao DN: João Pedro Fonseca e Ana Glória Lucas estavam em Díli ao serviço do DN. Além das dificuldades de trabalhar num país destruído, havia o desafio de enviar as reportagens. Foi decidido em Lisboa comprar um telefone-satélite e quem o levou para a dupla do DN foi o padre Vítor Melícias, dentro de uma mala cheia de sabão azul (testemunho do João).

Timor precisa da Indonésia. Muito mais do que esta precisa de Timor. Estamos a falar da 16.ª economia mundial, membro do G20 e a crescer 5% ao ano, e da 160.ª. Mas sobretudo é bom descobrir que nem sempre o óbvio triunfa. E o óbvio seria um gigante destabilizar de forma discreta mas eficaz o vizinho, para lhe fazer servir de vacina. A Indonésia preferiu perante o tal "bom vizinho" ser ela também um bom vizinho. Aquela despedida de Xanana a Habibie é um momento único na história mundial.

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