Roleta espanhola agora com mais balas Vox

Nos últimos cinco anos, os espanhóis já tiveram o Podemos (agora Unidas Podemos) como terceiro maior partido, depois deram em abril esse estatuto ao Ciudadanos, agora é o Vox que emerge como a maior força depois dos tradicionais PSOE e PP. Não haverá maior prova de que o sistema partidário espanhol se tornou uma roleta russa e que, perante eleitores que cada vez mais saltitam de sigla em sigla, os líderes partidários se mostram incapazes de compromissos mínimos para bem do país. Preferiram até agora, tudo indica, fazer cálculos de poder ou ceder a implicações pessoais.

Mariano Rajoy, em 2015/16, acreditou que voltar às urnas resolveria a incapacidade do PP em governar com apoios sólidos. Agora, foi Pedro Sánchez que, depois da vitória escassa do PSOE em abril, confiou que repetir eleições lhe traria dividendos. Fez pior ainda do que o já retirado Rajoy, pois até perdeu alguns deputados. E sobretudo não se percebe como o primeiro-ministro cessante imagina ser reconduzido. A relativa possibilidade de um governo minoritário socialista viabilizado pelo PP de Pablo Casado, de modo a haver uma frente unida para lidar com o separatismo catalão (ontem de novo em minoria no voto regional), transformou-se em relativa improbabilidade dada a tremenda subida do Vox, uma grande fonte de preocupação para os conservadores como em tempo a ascensão do Podemos o foi para o PSOE.

Haverá em Espanha quem tenha saudades do bipartidarismo reinante até 2015, quando PSOE e PP alternavam no governo de Madrid, ora em solitário (graças a maiorias absolutas) ou com apoio pontual de algum dos partidos nacionalistas, em regra o basco PNV ou o catalão CiU, este último, com outro nome, hoje uma fraca memória do que já foi, tendo sido ultrapassado pela Esquerda Republicana, parceiros na tentação independentista dos últimos anos na mais rica região de Espanha.

A festa de Santiago Abascal, líder do Vox, tem como contraponto a desilusão de Albert Rivera, que à frente do moderado Ciudadanos teve oportunidade de resolver o imbróglio governativo espanhol mas autodestruiu-se ao afastar-se de Sánchez e preferir soluções 100% de direita (com o Vox, pois), como a que há uns meses afastou o PSOE da Junta da Andaluzia. De fazedor de reis, o Ciudadanos passou a quinto partido nacional em votos (sexto em deputados) e Rivera arrisca estar de saída da liderança.

Se o PSOE ganha mas perdendo deputados e o Ciudadanos perde em toda a linha, já o Unidas Podemos perde deputados mas resiste, continuando quarta força, o que é tanto mais assinalável quanto Sánchez pressionava com o apelo do voto útil e o novo Más País, de Íñigo Errejón, se alimenta do mesmo eleitorado.

Esta roleta russa à espanhola tem origens fáceis de identificar: um PSOE incompetente para lidar com a crise económica de há uma década, um PP campeão da austeridade mas pródigo em casos de corrupção, um movimento de indignados que resultou numa nova esquerda radical (Podemos), um centrismo esclarecido que emergiu em torno da dupla rejeição dos escândalos do PP e do separatismo catalão (Ciudadanos), uma reação de extrema-direita que resultou do nacionalismo espanhol versus o nacionalismo catalão e foi ainda buscar apoios aos descontentes vários, desde os receosos da imigração até aos saudosos de Franco revoltados com a exumação do ditador, passando pelos que veem o feminismo como uma ameaça (Vox). Mas se o início da complicação é visível, o fim parece impossível de vislumbrar.

Soluções, tirando nova ida às urnas (não!) e a tal relativa improbabilidade de um governo PSOE viabilizado pelo PP para enfrentar o desafio catalão? Só se for uma aliança de esquerda, com Unidas Podemos e Más País a apoiarem Sánchez de fora e este beneficiando da boa vontade interesseira de alguns partidos nacionalistas (da Catalunha chegam agora até deputados antissistema). Ou seja, algo e o seu oposto, neste último caso a comprovar que existe uma atração doentia pela roleta russa entre a classe política espanhola e que já cansa o povo, como se pode ver pelo aumento da abstenção.

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