Em Portugal quem mata é lá de casa

Lembrei-me a propósito de dois assassínios recentes em Portugal, incluindo o do triatleta Luís Grilo, que já estive em reportagem no país mais perigoso do mundo. E não, não foi quando o DN me enviou ao Afeganistão dos talibãs.

Esse país chama-se El Salvador, mais pequeno do que o Alentejo e com sete milhões de habitantes. Ali a taxa de homicídio é 83 por cem mil habitantes (já foi pior!), quando na África do Sul é 34, no Brasil 30, no México 19 e nos Estados Unidos 5, só para comparar com outros países tradicionalmente com fama de insegurança.

A grande explicação para a extrema violência na sociedade salvadorenha são as maras, gangues de jovens, muitos deles crescidos nos Estados Unidos e expulsos para o país de origem depois de cumprir pena por algum crime. É um problema partilhado por outros países da América Central.

Em Portugal, a tal taxa de homicídios é hoje inferior a 1 por cem mil. É um valor entre os melhores da Europa. Aliás, ajuda a explicar por que somos considerados um dos países mais pacíficos do mundo. E ainda por cima os casos de morte violentas deliberadas têm vindo a diminuir, não só comparado com esse século XIX que viu tanto o primeiro censo como a fundação do DN (ambos em 1864), como já no século XXI. Passaram de 105 em 2001 para 66 em 2016, segundo os dados da Pordata.

Várias notícias ao longo dos últimos anos apontam para que um terço dos homicídios em Portugal seja entre casais. E agora é a mulher de Luís Grilo que surge como suspeita, tendo já sido detida. Se a estes homicídios se juntar outros a envolver a família, como o recente alegado assassínio de uma professora do Montijo pela filha, percebe-se que é em casa que muitas vezes está o perigo. Como nos tempos em que os vizinhos se matavam à sacholada por causa de delimitação de terras, a proximidade traz riscos, que nenhuma política de segurança pública pode evitar a 100%, se bem que no caso de violência doméstica a sociedade possa fazer muito melhor na prevenção daquilo que é sobretudo feminicídio.

Portugal não é, pois, El Salvador. Também não é o Japão, o grande país onde quase não há homicídios (0,3 por cem mil), mas anda lá perto. É tranquilizador saber que ninguém é morto cá só para lhe roubarem uma bicicleta e está de parabéns o país por ter umas polícias que são capazes de investigar, de modo a evitar o alarme social.

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