Para onde foi a prata?

Continua a ser uma aventura atravessar a Avenida 9 de Julho, a mais emblemática de Buenos Aires, onde fica o Teatro Colón. Belíssimo, foi inaugurado há um século, numa época em que a prosperidade da Argentina era tanta que não só atraía massas de imigrantes (espanhóis e italianos, até portugueses, se bem que o bisavô transmontano de Borges tenha chegado na era colonial) como oferecia um nível de vida que batia países como a França e a Alemanha; e esmagava o do Brasil, rival desde o tempo em que a invasão napoleónica da Península Ibérica provocou ondas de choque em toda a América Latina.
O nome da avenida famosa pelas 14 faixas (ou serão 18?) homenageia a data em que o país se tornou independente em 1816, mesmo que na época fosse pouco mais do que a região de Buenos Aires e tivesse como nome Províncias Unidas. Foi um processo complicado o da separação, pois se de início a junta se indignava com a usurpação do trono espanhol por um irmão do imperador francês, não tardou a cortar laços com um Fernando VII reposto mas tão autoritário que acabou com o liberalismo das Cortes de Cádis. Morria o vice-reino do Rio da Prata, nascia um grande país, que se estende hoje do Chaco, a norte, até à Terra do Fogo, a sul, e dos Andes ao Atlântico. Um país que apesar das crises que destruíram a tal prosperidade que existia em vésperas da Primeira Guerra Mundial está no G20, esse grupo das economias mais poderosas onde até há pouco Cristina Kirchner era presença certa nas cimeiras. Ora, acabou a era dos Kirchner. De Cristina e também de Néstor, o marido que foi presidente antes dela e entretanto morreu. Não nos admiremos desta sucessão dentro de um casal, já tinha acontecido antes na Argentina, quando Juan Perón morreu e Estela, mulher e também vice-presidente, lhe sucedeu. Coisa de peronistas, dirão alguns, como se não houvesse dinastias noutros países e Hillary Clinton não tentasse pela segunda vez imitar o marido como presidente dos Estados Unidos.
Mas sim, muitos dos males da Argentina costumam ser atribuídos ao peronismo, ideologia tão vaga hoje que acolhe os peronistas de esquerda como os de direita, mas que na origem se inspira num militar, Juan Perón, que combinava autoritarismo com preocupações sociais e no estrangeiro talvez seja menos famoso do que a sua companheira dos anos 1940, Evita, a amiga dos descamisados.

Há uns tempos, a revista Economist publicou um artigo sobre o declínio da Argentina em que mostra, de facto, que este se acentua a seguir à Segunda Guerra Mundial, coincidindo com a ascensão de Perón. Mas esse declínio manteve-se nos períodos em que o político populista esteve afastado do poder e até depois da sua morte, quando os militares derrubaram a viúva e se instalaram no governo, só saindo depois da derrota nas Malvinas em 1982, qaundo uma tentativa de reconquista das ilhas aos britânicos para efeito de popularidade fez ricochete.

Desde finais do ano passado, a Argentina tem um presidente que não só recusa o peronismo, como combate o seu legado e o que resta da sua influência. Mas Mauricio Macri, que vem do mundo empresarial e quer fazer as reformas que devolvam a prosperidade de outrora, arrisca-se a falhar por demasiada ambição. Quem visita Buenos Aires percebe o fausto de outrora, testemunhado pelo Colón e tantos outros edifícios, mas também a fragilidade do equilibrio social construído pelos peronistas graças a um conflito com os credores internacionais e a uma proliferação de emprego público.

E se os prédios resistem de pé mesmo com a fachada esfolada, a sociedade está fragilizada. Habituou-se mais nas últimas décadas a produzir mitos, de Evita a Maradona, do Che a Gardel e Fangio, agora o Papa, do que a repetir o sucesso desse início do século XX quando não havia impossíveis no Rio da Prata e Aida estava em exibição no Colón.

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