Referendo morto, referendo posto

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Na edição do El País que chegou às bancas antes de se iniciar o referendo independentista de ontem, Cebrián denunciava o "carnaval político na Catalunha". Creio que nem o fundador do grande diário espanhol imaginaria até que ponto, nas horas seguintes, seria mesmo carnavalesco, no pior dos sentidos, o que se passou, desde as cargas da polícia de choque até à declaração do presidente do Barcelona de que o clube jogara à porta fechada "para que o mundo inteiro veja como sofremos na Catalunha".

Não nos fixemos, porém, nem na Guardia Civil nem no patrão do Barça. Olhemos antes para os políticos incapazes de evitar o que se passou, e que nada de bom promete à Espanha e à Catalunha. E esses políticos são o chefe do governo de Madrid e o presidente catalão. Cebrián tinha toda a razão quando dizia que sucedesse o que sucedesse "haverá que dar lugar à negociação" e que "nem Puigdemont nem Rajoy poderão ser interlocutores".

Dirão os que conhecem bem Cebrián que é um homem do campo socialista, tão distante de Rajoy como crítico de Puigdemont. Mas afirme-se em abono da verdade que têm sido os socialistas quem historicamente tem tido sucesso em conciliar a tradição centralista de Madrid com as revindicações das periferias. E com esse historial, o PSOE pode ser decisivo para que os acontecimentos não sirvam para, por um lado, fortalecer o nacionalismo espanholista, e, por outro, extremar mais os separatistas.

Nas últimas semanas, os socialistas de Sánchez mostraram-se firmes na defesa da unidade do Estado, apoiando as decisões da Justiça e do governo. Mas souberam manter as pontes com os catalães e ainda ontem o seu líder regional se pronunciava contra as cargas policiais num contexto em que o referendo já nada valia. É que ao contrário do PP, pouco influente na sociedade catalã, o PSOE continua a ter peso, embora menor do que há uma década, quando governou e, de certa forma, lançou as raízes da crise ao reformar o estatuto de autonomia, algo que os conservadores nunca facilitaram, horrorizados com a ideia de haver ali uma nação.

Este referendo já lá vai, e os resultados pelo sim (90% de 2,2 milhões de votos) de nada valerão, mas outro referendo há de vir. Um referendo legal, negociado pelo governo espanhol (este ou outro) e pelos representantes catalães (estes ou outros), com uma amplitude que ponha fim a este absurdo em que duas legitimidades se opõem.

Tem-se discutido muito o direito dos catalães à independência, mesmo que a Espanha pós-franquismo seja hoje uma sólida democracia e permita às regiões a autonomia vastíssima que o ditador recusava. E os precedentes referidos são o referendo de 2014 na Escócia e o quebequense de 1995; tem-se também argumentado muito com a antiguidade da nação catalã, com uma língua e cultura identificáveis desde há mil anos. E são muitas as tentações de analogias com Portugal.

Ora, vale a pena assinalar que Escócia e Quebeque tiveram referendos negociados com o Reino Unido e o Canadá e que, ao contrário dos 60 anos de União Ibérica em que Portugal participou, a Catalunha fez parte desde o início do processo de formação da Espanha, como parcela dessa Coroa de Aragão que pelo casamento dos Reis Católicos se uniu com Castela. Em entrevista ao DN, ontem, o historiador Jordi Canal alertava, aliás, para mitos alimentados pelos independentistas, como o do fim dos privilégios catalães em 1714 ter sido por apoiarem o lado perdedor da Guerra da Sucessão, quando na verdade a retaliação de Filipe V deveu-se à traição.

A Catalunha vale um quinto do PIB espanhol mas independente será, em vez de parte de um país do G20, uma potência média, próxima da Finlândia. Soberana, poderá insistir na sua língua, mas perderá boa parte da afinidade com a América Latina, onde o espanhol é a língua da cultura e dos negócios. Separada de Espanha, não terá lugar garantido na União Europeia, apesar da sua convicção europeísta. Mas mesmo tendo tanto a perder, os catalães (todos) têm direito a ambicionar decidir o seu caminho. Resta saber se só há um caminho ou vários. Se a independência é mesmo o objetivo dos 7,5 milhões de habitantes ou se há outra forma de renovar os laços com o resto de Espanha, desde um reforço da autonomia até à criação de uma Espanha federal. Políticos sensatos e construtivos, em Madrid e Barcelona, precisam-se. Já a partir de hoje.

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