Putin, a Rússia e nós, senhores dos oceanos

Havia quem falasse muito da Europa do Atlântico aos Urais. Na verdade, por causa da Rússia, a Europa vai mesmo é do cabo da Roca até ao estreito de Bering. Pelo menos do ponto de vista cultural. E por isso não pode passar despercebido o interesse do maior país europeu (na realidade, o maior do mundo) pela história de Portugal como o grande propagador da cultura do nosso continente: no dia 8 inaugura-se nos Museus do Kremlin a exposição "Senhores dos Oceanos. Tesouros do Império Português dos séculos XVI-XVIII".

Foi o próprio presidente russo que anunciou a exposição em Moscovo dedicada aos navegadores portugueses, há umas semanas. Esse mesmo Vladimir Putin que, numa visita a Lisboa há dez anos, foi à zona de Belém, onde está a Torre e os Jerónimos, e colocou uma coroa de flores no túmulo de Camões, não só o autor da nossa epopeia como um português que andou a conhecer os cantos do império.

Não sei quanto sabe Putin da história de Portugal. Do que tenho conversado ao longo dos anos com russos, percebo que as Descobertas lhes são familiares e que em algum momento da escola se falará de Vasco da Gama. De qualquer forma, a exposição agora em Moscovo será um momento para Portugal brilhar na Rússia (ainda antes do Mundial de futebol). O anúncio por Putin coincidiu com a apresentação de credenciais do embaixador Paulo Vizeu Pinheiro, em outubro, tendo o presidente, que já conhecia o diplomata, falado de como a história portuguesa se liga a "uma era de grandes descobertas geográficas".

A quatro mil quilómetros dessa Moscovo que já visitei, e na qual me deslumbrou como se misturam as arquiteturas czarista, soviética e pós-comunista (Rússia eterna?), perguntei ao embaixador russo em Lisboa o que vale uma exposição como esta nos Museus do Kremlin para as relações bilaterais. "Os laços histórico-culturais entre a Rússia e Portugal têm suas origens nos séculos remotos, e são vários os documentos históricos que revelam o carácter sempre amigável e mutuamente respeitoso das relações entre os povos russo e português", começa por dizer Oleg Belous. Para logo acrescentar que "nos próximos dias será inaugurada, nos Museus do Kremlin de Moscovo, uma exposição sem precedentes "Senhores dos Oceanos. Tesouros do Império Português dos séculos XVI-XVIII" que foi escrupulosamente preparada pelos peritos russos. Estou seguro de que este evento será emblemático para o diálogo cultural Rússia-Portugal, oferecendo ao público uma oportunidade interessantíssima para conhecer mais uma vez, duma maneira nova, a rica cultura e história deste glorioso país europeu."

Ora, os russos reconhecem a nossa história como gloriosa e vão aprender um pouco mais sobre ela. E nós também sabemos como é rica a sua cultura e história, a ponto de fazer da Rússia, hoje como no passado, uma grande potência. Mas o que talvez seja menos conhecido é que também os russos foram exploradores. Basta pensar como se lançaram à conquista da vastidão siberiana e como na América do Norte chegaram a ser senhores não só do Alasca como até de Fort Ross, na Califórnia. Dois episódios das histórias portuguesa e russa nesta matéria das explorações do planeta até se cruzam: no século XVI o português Jorge de Menezes foi o primeiro europeu a chegar à Nova Guiné, que chamou de Papua. Mas foi o russo Nicolai Miklouho-Maclay, já no século XIX, o primeiro europeu a entrar na ilha e a viver entre as suas tribos; e há David Melgueiro, um português que ao serviço da Holanda fez no século XVII a viagem entre o Japão e a Europa pelo Ártico, atravessando os mares siberianos e, portanto, navegando milhares de quilómetros junto à costa russa.

Os russos, tão grandes, sabem que Portugal só é pequeno no tamanho, não na história.

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