George W. Bush é altamente impopular junto da opinião pública das principais nações da Europa Ocidental. Por larga margem, os povos de Alemanha, França, Reino Unido e Itália desaprovam a forma como lida com a política internacional, e o presidente americano não inspira muito mais confiança nesses países do que o presidente russo Vladimir Putin..Propositadamente, não usei aspas para abrir e fechar a frase acima, uma citação do relatório do Pew Research Center sobre a popularidade dos Estados Unidos no mundo. E não, não me enganei na transcrição. O presidente americano em causa é mesmo Bush filho, pois o estudo é de 2001. E sim, Putin já era então o homem forte do Kremlin..Foi agora conhecido um outro estudo sobre a popularidade das nações, da Gallup, com os Estados Unidos de Donald Trump em queda, ultrapassados pela Alemanha como potência mais admirada. Um resultado péssimo que contrasta com um período de oito anos consecutivos de aprovação global da liderança americana. Oito anos, sim, os anos dos dois mandatos de Barack Obama. E é difícil não notar que, salvo óbvias exceções (por exemplo Israel gostar mais de Trump do que de Obama), o mundo costuma simpatizar mais com um democrata na Casa Branca do que com um republicano. E quem diz o mundo, diz mais ainda a Europa Ocidental. Pelo menos desde os tempos de Richard Nixon..No estudo da Gallup, a popularidade americana baixa dez pontos percentuais ou mais em toda a Europa Ocidental (assim como no Canadá, na Austrália e na Nova Zelândia). É uma reação à eleição de Trump em novembro de 2016, também ao seu estilo de magnata sem papas na língua, e sobretudo ao unilateralismo de algumas decisões, como a rejeição da Parceria Transpacífico e do Acordo de Paris sobre o Clima. Mas ainda antes da vitória, e portanto das suas ações como presidente, já Trump era malvisto pelas elites europeias, de esquerda como de direita, basta pensar no inusitado (em termos de diplomacia) apoio a Hillary Clinton de Frank-Walter Steinmeier e Laurent Fabius, então ministros dos Negócios Estrangeiros alemão e francês, ou na forma como em Portugal o ex-líder do CDS Paulo Portas se mostrou contra uma vitória do republicano..Já referi Nixon, o presidente que teve de se demitir por causa do Watergate e cuja má fama era tanta ainda antes do escândalo que na América lhe chamavam Tricky Dicky, traduzível para português por Ricardinho Manhoso. Mas outros presidentes republicanos foram muito mal-amados pelos europeus, sobretudo Ronald Reagan e Bush filho. O primeiro era com sobranceria chamado de ator de segunda, enquanto o segundo tanto podia ser tratado por alcoólico como por filhinho do papá. A ambos também chamavam de cowboys, no pior dos sentidos. Agora, já com uns anos pelo meio para se poder ser mais objetivo, é possível identificar Nixon como um génio geopolítico (a visita a Pequim e a forma como transformou em rivais as comunistas China e União Soviética merece ser estudada), Reagan como o vencedor da Guerra Fria (o homem que exigiu a Mikhail Gorbachev que derrubasse o Muro de Berlim), e mesmo Bush filho, desastroso no Iraque pelas consequências conhecidas, pode reivindicar ter sabido unir a América e boa parte do mundo em apoio dela, após o 11 de Setembro..Sobre o desempenho presidencial de Trump, estes exemplos passados pouco nos dizem. Nixon, Reagan e Bush filho tinham experiência política antes de chegar à Casa Branca, ao contrário do atual inquilino, homem de negócios. Mas o preconceito dos europeus contra os presidentes republicanos existe sem dúvida - replicando o sentimento nas duas costas da América, as mais liberais - e precisa de ser diferenciado daquilo que pensam sobre os próprios Estados Unidos. Não se exagere o declínio do império americano. É fake news.