Não, não voltámos à Guerra Fria. Ponham China nisto

Americanos e russos estão em campos opostos na Venezuela, na Ucrânia e na Síria, mas isso está longe de significar um regresso à Guerra Fria. E também não é preciso interpretar nesse sentido a recente retirada americana do INF, o tratado que limita as Forças Nucleares de Alcance Intermédio, assinado no tempo da União Soviética entre Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev.

É verdade que tanto a Casa Branca como o Kremlin ajudam a criar esse clima com as suas tiradas bombásticas: desenvolveremos um arsenal nuclear nuclear tão poderoso que obrigará ao bom senso dos rivais, diz o presidente americano, Donald Trump; o mais veloz míssil de sempre, ameaça o russo Vladimir Putin.

De novo é importante ver além das aparências: na Venezuela, os Estados Unidos ameaçam com uma intervenção militar semelhante às que Theodore Roosevelt fazia no início do século XX no chamado pátio das traseiras, as Caraíbas; e a Rússia defende ali sobretudo os seus interesses económicos, além, claro, de dificultar a vida a Trump. Já na Ucrânia, a anexação da Crimeia pela Rússia seria compreendida por qualquer czar. E a solidariedade americana com Kiev explica-se pela vontade em contrariar a expansão russa na Europa de Leste. Só no caso da guerra civil na Síria, onde Moscovo tem bases desde a era soviética, certa lógica de Guerra Fria era percetível, com apoio a lados rivais, com ideologias distintas, e isso até Trump anunciar a retirada das tropas americanas, aceitando o triunfo de Bashar al-Assad, o protegido de Putin.

A ideia de regresso à Guerra Fria faz ainda menos sentido no caso do armamento nuclear. Pelo menos da parte da Rússia, que herdou da União Soviética um arsenal que lhe permite até hoje manter paridade com os Estados Unidos (6850 ogivas vs. 6450 ogivas, ou seja, várias vezes a capacidade para destruir o planeta). A nível convencional, o orçamento militar americano é mais de oito vezes o da Rússia. A América tem também cinco das dez maiores empresas de armamento do mundo, incluindo o top 3, enquanto a Rússia tem a décima.

Uma nova corrida ao armamento nuclear é má para a Rússia, que, muito dependente das exportações de gás e de petróleo, e afetada pelas sanções por causa da Crimeia, precisa de canalizar mais recursos do Estado para a qualidade de vida da população. E a prova de que é má para a Rússia é a suspeita de que certos setores americanos querem hoje repetir a fórmula na corrida ao armamento da década de 1980 que resultou na falência da União Soviética. Quando muito, a Rússia aproveitará o fim do INF para marcar terreno no flanco leste da NATO.

Mas a superioridade de recursos da América não implica que Trump tenha interesse em imitar Reagan e aumentar a parada até Putin ceder. Além de o atual presidente americano ter já dado sinais de que não vê a Rússia obrigatoriamente como inimigo, o que lhe vale críticas internas e dos parceiros da NATO, há a forte possibilidade de ser a China a verdadeira razão do fim do INF. Afinal, a potência pobre do tempo da Guerra Fria, comunista mas antissoviética, revela meios e ambições totalmente novos (apesar de só ter 280 ogivas). E tem a vantagem de, embora ainda em afirmação como potência global, não estar submetida às restrições de velhos tratados nucleares entre americanos e soviéticos (o START, que limita o os mísseis intercontinentais, foi negociado por Bush pai e Gorbachev e vale até 2021).

Não, não é a Guerra Fria. É algo novo que vêm aí, não a repetição da segunda metade do século XX. O INF não limita a ação dos Estados Unidos só na Europa, também o faz na Ásia. Onde a China já atua como superpotência.

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