Novo grande jogo na Ásia Central: UE versus russos vs chineses

Com quatro milhões de quilómetros quadrados, a Ásia Central ex-soviética quase iguala em território a União Europeia. Seria, pois, de esperar que o novo acordo de parceria entre os cinco países da região e os 28 Estados membros da UE, que será ratificado em Bishkek (Quirguízia) a 7 de julho, representasse uma torrente de oportunidades para ambos os lados. Não é certo que assim aconteça, pois os cinco países centro-asiáticos são atraídos por outros polos de poder, como a Rússia, com a qual têm fortíssima relação histórica, e cada vez mais a China, cujo projeto Uma Faixa, Uma Rota promete investimentos.

Aliás, apesar dos mil milhões de euros de apoio da UE aos países da Ásia Central nos últimos cinco anos, a aproximação regional a Moscovo e a Pequim não abrandou. Isso é visível até no Cazaquistão, o maior país em área e também aquele que desde a desagregação da URSS, em 1991, mais afirmou a vocação euro-asiática, resposta tanto à geografia como à diversidade étnica.

Vale a pena olhar um pouco mais para o Cazaquistão, de matriz túrquica tal como Usbequistão, o Turcomenistão e a Quirguízia (a exceção na região é o Tajiquistão, de língua persa). Sob a liderança de Nursultan Nazarbayev, o país prosperou nestes quase 30 anos de independência, muito graças ao petróleo. Assinou mesmo em 2015 com a UE um acordo de parceria e cooperação, que o destaca da vizinhança. E ainda há semanas o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros esteve em Portugal para incentivar oportunidades de negócio.

Envolvido numa transição política - com a reforma voluntária do "pai da nação", o rebatizar da capital Astana como Nursultan em homenagem ao ex-presidente e eleições antecipadas -, o Cazaquistão tem apostado na economia de mercado e em libertar-se da dependência excessiva do petróleo. E a sua balança comercial positiva mostra como há espaço para venda de produtos aos 18 milhões de habitantes (a segunda população da zona, depois do Usbequistão) Afinal o per capita em PPP é de 24 mil dólares. Mas Rússia e China são os grandes parceiros comerciais, com o primeiro da UE a surgir em terceiro lugar.

Depois do fim da Guerra Fria, a Ásia Central atraiu o interesse geopolítico do Ocidente, sobretudo de uns Estados Unidos que no âmbito da guerra ao terrorismo e da intervenção militar no Afeganistão chegaram a ter bases no Usbequistão e na Quirguízia. Pouco a pouco, porém, notou-se um retraimento dos americanos.

A favor dos europeus nesta espécie de grande jogo de interesses em que a Ásia Central serve de tabuleiro está, porém, a vontade dos novos Estados de se libertarem da etiqueta de ex-soviéticos, o que na relação com Moscovo é difícil, e também a tensão latente com Pequim por causa do tratamento das minorias muçulmanas no Xinjiang, onde vivem um milhão de cazaques e uns 200 mil quirguizes.

A UE tem, por outro lado, vindo a mostrar consciência de que insistir nos temas tradicionais de cooperação como a democratização das instituições e a promoção dos direitos humanos pode ser equilibrado com a aposta em dossiês como o controlo de fronteiras e o combate ao terrorismo, além do aquecimento global, problemático numa região árida e com pouca água.

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