E elogiar a japonesa Naomi em vez de só se falar da birra de Serena?

Naomi Osaka, filha de um haitiano e de uma japonesa, nova estrela do ténis. É dela que se devia estar a falar e não de Serena Williams. Depois da derrota na final do US Open, e dos insultos ao árbitro português Carlos Ramos, a tenista veterana americana, 36 anos, tem sido falada e refalada, como se em campo tivesse estado sozinha. Até a japonesa de 20 anos, que cresceu a admirar as irmãs Serena e Venus, se sentiu incomodada pela polémica em torno do jogo. "Espero que Serena não esteja zangada comigo", disse mesmo. Mas como salientou o New York Times, não tem nada por que pedir desculpa, "simplesmente fez tudo melhor do que Williams; serviu melhor, moveu-se melhor, devolveu melhor".

E os números finais no Arthur Ash Stadium em Nova Iorque (6-2, 6-4) são reveladores da supremacia da mais jovem no último sábado, pouco ou nada contando um jogo tirado à rival por receber instruções ilícitas do treinador. Agora até um cartoon australiano suscita polémica, mais uma vez centrado em Serena e na sua birra com o árbitro e a dar azo a acusações de sexismo e de racismo (mas Naomi, filha de haitiano negro e de uma japonesa, surgir ao fundo no desenho de Mark Knight como branca e loira também seria discutível, se tivesse alguma importância).

Falemos de Naomi Osaka, seja para celebrar a sua ascensão a grande figura do ténis mundial, seja para recordar uma história pessoal nem sempre fácil: nascida no Japão, usa o apelido materno e não o François do pai (seu primeiro treinador) por questões de vida prática no país asiático, mas vive nos Estados Unidos desde os quatro anos. Compete pelo Japão, mas tem tido aulas para melhorar o domínio da língua materna. E ao que parece a história de amor dos pais foi complicada pelas diferenças culturais: os avós japoneses de Naomi estiveram anos sem falar com a filha por causa da relação. Dentro de dias, a tenista vai ao Japão, a Tóquio. O avô, que vive em Hokaido, a ilha mais setentrional das quatro grandes japonesas, está orgulhoso do feito da neta e já disse que assistirá ao Toray Pan Pacific Open. Talvez o primeiro-ministro Shinzo Abe também vá. Para já, elogiou no twitter a compatriota que anda (ou devia andar) nas bocas do mundo.

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