Beleza húngara

Imagine que tem um antepassado famoso que viveu noutro país e morreu antes de a família se exilar. E que, de repente, ouve tocar a mais genial das composições desse avô há quase um século desaparecido, uma música nunca antes interpretada em Portugal. Aconteceu há dias no concerto em Lisboa a celebrar os 60 anos da falhada revolução húngara de 1956 contra o regime comunista imposto após a Segunda Guerra Mundial.

As personagens desta história luso-húngara são várias, entre mortos e vivos: Jenö Hubay, violonista que nasceu no império austro-húngaro e foi aconselhado por Franz Liszt a fazer carreira internacional, regressando a Budapeste para morrer em 1937 numa Hungria independente mas muito amputada; Andor Hubay-Cebrian, o filho de Jenö que chegou com a mulher e duas crianças a Portugal em 1951 para trabalhar como diretor artístico da Vista Alegre; Lázló Hubay-Cebrian, um dos netos de Jenö, que vive até hoje em Portugal, onde foi presidente da Walt Disney e da Câmara de Comércio Luso-Húngara; a embaixadora Klára Breuer, que trouxe Vilmos Szabadi, o atual grande violinista da Academia Liszt, para tocar com a Sinfonietta de Lisboa e assim acrescentou este emotivo episódio a uma epopeia que vai dar um filme; e, não esquecer, Edle Astrup Hubay-Cebrian, a nora de Jenö, mulher de Andor e mãe de Lázló, uma norueguesa (esta é uma história europeia!) que escreveu De Budapeste ao Estoril, base do futuro filme.

Quem é sabedor de música clássica poderá explicar melhor do que eu, mas o Concerto para Violino n.º 3 (Sol menor, op. 99) de Jenö Hubay é de grande beleza. Apresentado pela primeira vez em 1907 (e cito o musicólogo Lázló Gombos, que escreveu os textos da folha de sala), é um testemunho da prodigalidade musical húngara, que nos deu figuras como Béla Bartók e Ferenc Farkas, ambos também tocados na quinta-feira no auditório da Escola Superior de Música.

Jenö Hubay conheceu o apogeu e a queda do império austro-húngaro, a Primeira Guerra Mundial e a Hungria pós-Tratado de Trianon. Mas morreu antes do novo conflito mundial, do extermínio dos judeus da Europa Central e da satelização da Hungria pelos exércitos de Estaline.

Muito aconteceu desde então à sua pátria, longínquo legado das tribos magiares que há um milénio chegaram das estepes asiáticas. O comunismo foi desafiado e resistiu (1956), o comunismo foi desafiado e caiu (1989), a Hungria entrou para a União Europeia (2004), a Hungria e a União Europeia parecem estar às avessas (2016). Mas duas constantes saltam à vista: a força da cultura húngara e o apego do povo à liberdade, como prova a corajosa revolta de há 60 anos relembrada através da música clássica em Lisboa. E ter assistido a este reencontro músico-familiar (Lázló Hubay-Cebrian estava na sala) foi um privilégio.

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