Afinal, Espanha ganhou a guerra à América

Foi o ouro e a prata trazidos de Havana pelos espanhóis que financiaram a Batalha de Yorktown em 1781, decisiva para a independência dos Estados Unidos. Um pormenor que serve para lembrar como a Espanha, quase tanto como a França, contribuiu para que as 13 colónias norte-americanas se libertassem. Não foi um gesto idealista, só Realpolitik do século XVIII, pois o importante era enfraquecer o Império Britânico.
Nesta semana Barack Obama visitou Cuba, uma ilha cuja ligação à história dos Estados Unidos tem assim mais de dois séculos, mesmo que toda a gente só pense nas últimas décadas com Revolução Castrista, Crise dos Mísseis, embargo americano e agora esta corajosa normalização de relações. No início do século XIX, quando as elites creolas das Américas se revoltaram contra Madrid, o presidente James Monroe advertiu os independentistas venezuelanos e mexicanos para nem pensarem em enviar uma frota libertadora a Cuba. E John Quincy Adams, chefe de Diplomacia e seu sucessor na Casa Branca, descreveu a ilha como "uma fruta amadurecida" que bastava esperar para ser colhida pelos Estados Unidos na hora certa. O resultado foi Cuba ter permanecido espanhola até 1898, quando os Estados Unidos finalmente intervieram em favor dos rebeldes, ajudando a uma independência que era irreversível. Outra ilha espanhola nas Caraíbas, Porto Rico, teve destino diferente ao ser conquistada e feita território dos Estados Unidos mesmo sem ser até hoje um estado da União.
Pode classificar-se a Guerra Hispano-Americana de 1898 como o culminar do injusto agradecimento dos sucessores de George Washington à ajuda espanhola em Yorktown. Em cerca de um século, os Estados Unidos, orgulhosa potência anglo-saxónica, tinham estendido o seu território até ao golfo do México e ao Pacífico anexando parcelas de língua espanhola. Nova Orleães, com Napoleão como intermediário, e Florida foram cedidas ainda pelos espanhóis, mas Texas e Califórnia foram já arrancados aos mexicanos pela via das armas. Porto Rico seria, mais tarde, também uma perda dos espanhóis.
Mas olhemos bem para a visita de Obama a Cuba. Malia, a filha mais velha, serviu de intérprete. Está a aprender espanhol, a língua mais estudada nos Estados Unidos (mais do que todas as outras somadas). E os hispânicos já são 55 milhões, perto de um quinto da população, tendo ultrapassado os negros como principal minoria. Diz a evolução demográfica que continuarão a crescer, tornando-se decisivos em futuras eleições. Curiosamente, nas presidenciais deste ano, foi o Partido Republicano, o que menos os atrai, que apresentou candidatos que falam espanhol, de Ted Cruz a Marco Rubio, ambos com raízes cubanas, a Jeb Bush, casado com uma mexicana. E o jornalista americano que mais denuncia as tiradas absurdas de Donald Trump chama-se Jorge Ramos e entra em espanhol, via TV, em milhões de casas dos Estados Unidos.
Dias antes da visita de Obama a Cuba, o rei de Espanha esteve em Porto Rico. Descendente do monarca Borbón que ajudou Washington mas também do que perdeu a guerra de 1898, Felipe VI assistiu ao primeiro Congresso Internacional da Língua Espanhola realizado em Porto Rico e foi criticado por ter dito, no discurso, que apreciava voltar a visitar os Estados Unidos. Mas olhemos com mais atenção: é que homenageando o carinho com que os porto-riquenho protegem a língua de Cervantes mesmo sendo cidadãos dos Estados Unidos, o rei estava no fundo a fazer Realpolitik do século XXI. Para grande surpresa da história, do ponto de vista cultural, afinal talvez tenha sido a Espanha e ganhar a guerra à América. "Sí se puede", disse Obama em Havana.

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