A guerra civil por Pérez-Reverte

Escreve Arturo Pérez-Reverte no seu mais recente livro: "Todas as guerras são más, mas a guerra civil é a pior de todas, pois põe o amigo contra o amigo, o vizinho contra o vizinho, o irmão contra o irmão." Publicado em novembro em Espanha, La Guerra Civil Contada a Los Jovenes vai já na quarta edição, o que mostra como esse conflito iniciado faz agora 80 anos (1936-1939) não só se mantém vivo na memória dos espanhóis mais velhos, que o viveram ou ouviram os relatos dos pais sobreviventes, como desperta o interesse das gerações mais novas.

Nascido em 1951, Pérez-Reverte não conheceu a guerra, mas cresceu na Espanha de Franco, o chefe do bando vencedor. Repórter de guerra durante duas décadas (Território Comanche, sobre a Bósnia, é um testemunho tremendo), tornou-se depois escritor, sobretudo com romances históricos, como A Rainha do Sul, O Pintor de Batalhas ou O Assédio. Tem sido também um sucesso a série dedicada ao Capitão Alatriste, que combate na Flandres do século XVII.

Não está isento de riscos para um escritor tão popular dedicar um livro a um tema tão divisivo e prometer imparcialidade. E apesar de querer contar a Guerra Civil aos jovens, nem tem a desculpa de pensar na filha Carlota, já com 31 anos e arqueóloga. Um exemplo de como é uma obra fácil de criticar? A capa, ilustrada como o resto do livro por Fernando Vicente, mostra dois soldados de perfil: à esquerda, de vermelho, o republicano; à direita, de azul, o nacionalista, ou franquista. Houve logo quem sublinhasse que o rosto do primeiro é jovem, sereno, quase inocente, e que o segundo é duro, agressivo, quase metálico. Os autores preferiram ignorar essa polémica e destacar que há quem veja nos dois homens na capa um filho e um pai, forçados a combater em lados opostos. Não seria impossível.

Para nós portugueses, uma guerra civil é matéria só de livros. Não as conhecemos no século XX, pois mesmo as incursões monárquicas no Norte depois de 1910 foram breves e inconsequentes. Para uma guerra civil portuguesa a sério é preciso remontar ao choque entre liberais e absolutistas, partidários de D. Pedro e de D. Miguel, e isso foi há quase 200 anos, nenhum avô ou mesmo bisavô o contou a alguém hoje vivo. Mas em Espanha o fantasma da guerra de 1936-1939 ainda divide famílias, ainda opõe regiões, ainda marca os partidos da democracia nascida após a morte do general Franco em 1975.

Como começou? Pérez-Reverte sintetiza brilhantemente como a sublevação de direita contra a república governada pela esquerda se transformou numa guerra: "De início, tratava-se só de um golpe de Estado para instaurar uma ditadura militar que governasse o país. No entanto, as coisas complicaram-se para os golpistas por causa da resistência que desde o primeiro momento opuseram as esquerdas e o legítimo governo republicano, que armaram o povo para opor-se aos sublevados." Note-se a oposição entre "ditadura militar" e "legítimo governo" para se fazer justiça a Pérez-Reverte, que nunca deixa que o desejo de objetividade impeça que se adjetive aquilo que se tem de adjetivar, como qualquer repórter de guerra bem sabe, logo ele.

Claro que o livro fala de Guernica, e como os aviões de Hitler ajudaram à vitória de Franco, e também do heroísmo das Brigadas Internacionais, voluntários que vieram em socorro da república. Mas não esconde que as lutas entre socialistas, trotskistas, comunistas e anarquistas minaram o campo republicano e lembra que milhares de padres e freiras foram assassinados. Um dia, Pérez-Reverte disse numa entrevista que não tinha uma ideologia, preferia ter uma biblioteca. Este seu livro, mesmo que "para jovens", ajuda-nos a compreender essa sua tirada genial.

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