S. Cristiano Ronaldo e os cocktails Molotov de Luanda

Luanda vivia na tarde de terça-feira uma situação complicada, com as redes sociais a pegar fogo, o mesmo que ardia numa das suas mais importantes artérias, a do Rocha Pinto, ou 21 de janeiro. Desta vez o bombeiro foi, imagine-se, Cristiano Ronaldo, lá bem de longe. Eu conto tudo, tim tim por tim tim.

Angola tem vivido debaixo de uma operação sem fim marcado denominada Resgate. A ideia é boa, pretende repor a ordem em todos os aspectos da vida social. Quer-se acabar com as construções anárquicas, com a proliferação de seitas religiosas (já fecharam duas mil), quer-se retirar sucatas das ruas, etc..

Esta ideia, porém, tem o seu lado B, o lado idiota, que pretende acabar com a zunga (já digo do que se trata) usando a Polícia e fiscais administrativos.

A guerra, a fome, o subdesenvolvimento, a falta de emprego e de perspectivas de vida melhor trouxeram para as grande cidades milhares de pessoas do campo, até aqui nada de novo. Estas pessoas têm de viver e inventam formas de se agarrar à vida, uma delas é a zunga (venda ambulante desordenada). Acontece que a zunga já não tem o "encanto" da dor cantada por poetas à quitandeira que calcorreava a cidade, quinda ou balaio à cabeça, vendendo fruta, pé de moleque e doce de coco, ou soltando o pregão que se transformaria no mais esfomeador cheiro do mundo: o de peixe de Angola a fritar. Nada disso, a zunga ocupa passeios, monta pracinhas à porta de um ministério, se necessário, basta que haja clientes, e deixa lixo. A zunga circula entre os carros na avenida, ajudando a engarrafar a cidade, vende desde perigosas catanas a cisnes. Sim, cisnes brancos na seca e quente Luanda. A zunga emprega fundamentalmente mulheres, elas que não param diante de nada quando se trata de aconchegar o estômago dos seus filhos. A zunga é sobrevivência para quem não tem emprego, não tem subsídio de desemprego e nem qualquer outra forma de apoio do Estado.

O Governo angolano, neste momento de popularidade alta e de palmadinhas nas costas vindas de fora, mas sem dinheiro para melhorar a vida do povo, deixou-se levar pela ilusão de tudo poder e de tudo lhe ser aceite. Daí que lhe passou pela cabeça que a melhor forma de acabar com a zunga é acabar com as pracinhas usando a Polícia e fiscais das administrações que normalmente são amorais, mais preocupados em ficar com as coisas das senhoras.

Nesta terça-feira, uma mulher viu a Polícia retirar-lhe o negócio e colocá-lo na carroçaria do seu carro, ela não podia chegar à casa com o prejuízo (a zunga rende quase nada) e ver os filhos sem nada para comer. Daí, afoitou-se e resolveu resgatar os seus pertences, um polícia disparou-lhe uma bala à queima-roupa, no rosto. Morreu de imediato.

E assim, também de imediato, às 16:00 rebentou um tumulto que durou horas. A 21 de janeiro interditada, pneus e contentores a arder, carros apedrejados e tiros, muitos tiros. Eu seguia quase em directo no WhatsApp, não fosse aquilo expandir-se pela cidade. Não foi a primeira e nem a segunda morte de zungueira pela Polícia.

Deixe-me ficar na mesa de trabalho, o tempo tinha passado e no telefone comecei a ler que ele empatou a eliminatória, ele venceu a eliminatória, marcou três golos. As imagens de tumultos foram substituídas por tiffosi angolanos admiradores de Cristiano Ronaldo. Há pouco tempo eram do Real Madrid, mas o seu verdadeiro clube chama-se Cristiano Ronaldo, transferem-se com ele de clube em clube. A euforia tomou conta das redes sociais. No Palácio presidencial deve-se ter respirado de alívio e agradecido ao Santo Ronaldo.

Um angolano escreveu que "Cristiano merece todas as bolas (de ouro), incluindo as minhas". Outros, respondendo a um assunto agrave, disse: "espera só, ainda estamo a festejar o CR7". Cá para mim, numa próxima crise social, o Governo angolano que traga de imediato o seu santo, e apagam-se os cocktails Molotov. Mas não a zunga.

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