Veredas e atalhos da política de direita

A vertigem de elogios, dignos de evocações póstumas, sobre o legado governativo de Passos Coelho deixa antever o pior. Tementes de que as exéquias políticas fossem longe de mais e desembocassem em forçado interregno do único caminho que os interesses dominantes inscreveram em talha dourada, aí os vemos a ressuscitar não tanto o fautor mas sim a substância da política que executou. A reencarnação não tem nada de inocente.

São muitas, e não menos surpreendentes, as expressões de louvação à sua "coragem", a exaltação do "rigor" salvífico que nos teria livrado do inventado espectro da bancarrota, a gratidão pela precursora lavragem do trilho semeadora dos frutos do tempo presente. No recipiente infindável de virtudes que agora lhe reconhecem há um pequeno "senão", uma arreliadora mácula: o que os novos louva-passos identificam como o estilo desajeitado de que deu provas enquanto "líder da oposição". A nódoa agora vertida não tem que ver com alguma parcimónia elogiosa ou receio que ali se encarnasse a perfeição em pessoa. A imperfeição não está no passado que tão bem teria desempenhado. Está, isso sim, nessa decepcionante incapacidade para evitar outra solução que não a do bem-aventurado arco de governação, de não ter aberto as janelas ao diálogo, de não ter deixado ao PS outra opção que não a de se sujeitar o que à sua esquerda forçavam. Percebe-se ao que andam. Na busca do caminho da recuperação do tempo perdido, medido pela bitola que interessa, ou seja, o volume de acumulação de lucros que não querem ver questionada. Esse desejado caminho que, por trilhos, atalhos ou veredas desagúe nas águas paradisíacas das praças financeiras. Para o efeito importa pouco o estado do piso, redescoberto que está o asfaltador capaz de aplanar o terreno.

Não espanta que da boca de Rui Rio, e do aparo de analistas, se repitam todos os dogmas neoliberais - travestidos uns, na nudez da sua essência, outros - inscritos na agenda da política de direita. Aí temos reposto o "viver acima das possibilidades", agora na versão menos rústica de "acumular reservas". Ou revisitada a agenda de exploração e empobrecimento dos trabalhadores baseada na robustez económica da imbatível premissa: A economia cresce? Então, corte--se agora em direitos, pensões de reforma e salários porque dias maus hão-de chegar; a economia recua? Obviamente, corte-se nesse mesmo tecido para ajustar o corpo à medida, que é como quem diz garantir que a acumulação capitalista se mantém apresentável.

O investimento é baixo e tem de ser aumentado? Corte-se nos apoios sociais e nos serviços públicos, não no serviço de dívida sufocante que consome o excedente orçamental que o país já gera! Rebelam-se com a insensata colecção de défices externos acumulados nos últimos vinte anos? Lágrimas de crocodilo de quem se recusa a relacioná-los com a adesão à moeda única e os efeitos devastadores para a economia nacional, se resigna à usura dos credores, se esquece dos milhares de milhões engolidos na voragem fraudulenta dos banqueiros. O perigo, gritam, vem do consumo, do desequilíbrio que provoca à balança comercial a relação desigual entre exportação e produtos importados. Ninguém subestimará a importância das exportações. Mas não se a separe da condição primeira de realização - produzir - e muito menos não se ignorem as desvantagens concorrenciais decorrentes da amarração a uma moeda forte sem qualquer relação com a fragilidade da economia. Fingindo ignorar a deliberada destruição da produção nacional, apressam-se a decretar a única receita que conhecem. Não adianta explicar que consumo interno significa mais poder de compra: direito ao acesso a bens de primeira necessidade, não ter de ir para a porta do banco alimentar para obter o leite para os filhos ou o pão para pôr na mesa. Usufrutuários de outro estatuto material não ligam a tais minudências.

Não passa despercebida a janela que antevêem para traduzir a inata convergência de PS, PSD e CDS, em matérias estruturantes. Aquilo que Francisco Assis, exultante, vê como "novas perspectivas de diálogo, mais consentâneas a prazo com a obtenção de respostas que as verdadeiras necessidades do país exigem". O que resulta da convergência entre PS, PSD e CDS tem prova feita em quatro décadas de política de direita. O que o país precisa não é de exercícios de geometria variável que de forma mais ou menos elíptica, disfarçada aqui ou ali com a intercepção por segmentos secundários, mantenha as opções essenciais que tolhem o desenvolvimento e bem-estar. Não adianta teorizar sobre "consensos alargados" a pretexto de que sem dois terços de votos não há reformas aprovadas - a questão central é saber para quê e a quem servem. Como não adianta justificar o cair do PS nos braços do PSD a pretexto de não obter apoio de partidos à sua esquerda, iludindo as razões que levam uns a aprovar e outros a rejeitar. Clareza de propósito é o que se exige e se tem de provar.

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