Acaba de ser recusada a fixação do salário mínimo nacional em 600 euros. Há quem se recuse a admitir o óbvio. É de há séculos essa cegueira, ora ditada no passado por dogmas filosóficos ou religiosos ora em tempos modernos por interesse de acumulação do lucro, que negando o que é central procura sustentar o que é falso e marginal. Foi assim com a teoria geocêntrica até que Copérnico e depois Galileu, com não poucas agruras, ousaram revelar com o heliocentrismo que afinal não era em redor da Terra que todo o universo se movia. É assim desde o despontar do sistema económico dominante na relação trabalho e capital. Persiste a negação do valor dos salários enquanto questão central, em redor da qual se decide a repartição da riqueza, a apropriação por uma das partes, a que não a cria, da fatia de leão daquilo que com o seu trabalho outros produzem, o grau de exploração, a margem de lucro. O debate em redor do salário mínimo patenteia essa clara demarcação de posicionamentos face à valorização do trabalho..Não se trata de um episódio isolado. A recusa da devida valorização dos salários - seja do mínimo por decisão de quem governa seja dos restantes - funda-se numa concepção bem mais ampla e enraizada. O enaltecimento dos baixos salários faz parte de uma concepção de sociedade e de modelo económico que sob rendilhados disfarces irrompe em pleno nos momentos da verdade. A clareza com que um conhecido capitalista português, recentemente desaparecido, assumia explicitamente que a "economia deve ser baseada em trabalho de custos reduzidos" dado que "se não for a mão-de--obra barata não há emprego para ninguém" é suficiente para se entender a legião dos que acorreram e se multiplicaram em elogios fúnebres ao "empreendedorismo", "à dimensão visionária" ou ao "criador de emprego" a que a nação se deveria render. Em tempos de alegada "crise" foi ouvir a conversa da moderação dos salários vista como variável privilegiada da consolidação orçamental. Como se podia ler no Memorando de Entendimento subscrito com a troika "qualquer aumento do salário mínimo seria justificado pela evolução económica e do mercado de trabalho e após acordo no quadro da revisão do programa"..Ninguém seriamente o pode negar: para a maioria dos trabalhadores, os salários não garantem um mínimo para as suas vidas. O montante do salário mínimo nacional foi degradado e é dos mais baixos da Europa. E se é certo que se registou nestes dois últimos anos um aumento do seu valor, a sua subida para 580 euros (pouco mais do que 500 euros líquidos mensais) é manifestamente insuficiente para os mais de 700 mil trabalhadores que dele usufruem..Desmentindo os que o combatem, o seu aumento contribui para o desenvolvimento económico e para a criação de emprego e é indispensável para a melhoria das condições de vida e para o aumento do valor futuro das pensões de reforma. O aumento do salário mínimo para 600 euros dinamiza o mercado interno, a criação de emprego, valoriza as actividades produtivas e os serviços, aumenta o grau de incorporação nacional e o valor das exportações. A sua fixação nesse valor traduzir-se-ia, só no sector do turismo em que tem enorme expressão, numa entrada no país de mais de 300 milhões de euros por ano. Assim como permitira um reforço das receitas da Segurança Social em mais de 150 milhões de euros por ano..Mesmo para lá do valor do salário mínimo, os salários são baixos. Nem o recurso à teoria das medianas - sempre pronta a ser usada para justificar que tendo alguém alguma coisa e a pessoa ao lado coisa nenhuma ambos têm em média metade dessa parte - ilude que o salário médio em Portugal é baixo e insuficiente. Nestas coisas da "justiça", ou da falta dela, quem segura a balança está longe de o fazer vendada. Os pratos estão sempre desequilibrados em favor do lado dos interesses do capital, seja porque lá pesam, na conjuntura, os acordos do partido do governo com o BE seja pelo posicionamento de classe do PS, os interesses da política de direita e as chantagens das confederações patronais..Nesta balança de dois e duas medidas mora, por acção ou mera omissão táctica, esse contrapeso designado "concertação social". Ponto de encontro de parcelas desiguais para onde confluem os interesses estratégicos da política de direita e do grande patronato, a "concertação" tem sido um triturador de direitos, um compressor de rendimentos de trabalho, uma placa de transferência de encargos para as costas do Estado e de quem trabalha. Atente-se ao que, sem rodeios, a troika fixava em vésperas do seu programa de intensificação extrema de exploração e empobrecimento - "estimular a concertação salarial tripartida com vista à definição de normas para lidar com evoluções salariais globais que tenham em conta a posição competitiva da economia". Arrede-se o "economês" e logo se percebe onde querem chegar.