Quem vê caras

Do tesouro que é a psicologia de revista ou de programa de televisão, uma das verdades que mais acarinho é a de as dificuldades serem oportunidades. Claro que as dificuldades não são coisas boas em si, isso é para os tarados da dor e do sofrimento, os dos cabedais ou os das pagelas, que por vezes acumulam, mas são boas na medida em que o isolamento da coisa má realça a manta das boas. E há mais, ainda na linha daquelas psicólogas giras que vão à televisão dizer coisas que fazem imenso sentido, que é o facto de as nossas dificuldades serem uma porta para as dificuldades dos outros, ou pelo menos para não lhes fecharmos a porta na cara.

E tem que ver com caras, umas das minhas maiores dificuldades, que é a de reconhecer a cara das pessoas. O problema é que quem não tem este problema não percebe que é este problema, acha que é outro, normalmente má educação, snobeira, distração. Estive numa fila de uma inauguração de um museu mais de quarenta minutos ao lado de um diretor de uma revista com quem tinha estado nessa semana a falar meia hora cara a cara, sorri, a cara não me era estranha, mas não falei. Passados uns dias voltámos a estar juntos num contexto mais claro, zás, era ele, desculpas pedidas, lá me disse o compreensivo amigo que achava que eu por alguma razão não lhe teria querido falar em público ou porque quereria manter a minha companhia discreta.

Há gente que se apresenta e diz logo o nome, sou o Paulo da Zé, a mãe do seu colega António, ou dá contexto, como agora se diz, conhecemo-nos em casa do Manel em 2007, nos anos dele. Mas há muito aqueles que antes da misericórdia passam pela crueldade (como é normal em qualquer percurso de santidade), não está a ver quem sou? Não está mesmo a reconhecer-me? Veja lá se adivinha. Paula, não lhe diz nada? E o meu sorriso parvo a suspender o tempo até que a pessoa diga mais, a fingir que estou a pensar e que vou descobrir, que há mesmo uma remota hipótese de o cérebro reconhecer aquela cara.

O mal tem nome, chama-se prosopagnosia, face-blindness, e já está diagnosticado pelo Dr. Google, não o caso extremo do homem que confundia a mulher com o chapéu, relatado pelo Oliver Sacks no livro homónimo, mal muito menor mas mesmo assim mal. Os alunos, colegas, os personagens dos filmes (tanto), tudo. Tudo tem que ver com o mau funcionamento de uma zona do cérebro, a internet explica bem.

"Nesta semana, depois de trocar sorrisos com um jovem da minha idade, de o cumprimentar, de estar convencido de que era uma certa e determinada pessoa, dei-lhe os parabéns pelo novo emprego. Não era. Era outro."

Claro que se aprende a lidar (aprender a lidar é uma expressão que tem a sua função tanto no mundo da psicochachada relacional, mas também da tauromaquia), desenvolvemos estratégias. Tudo bem lá por casa? (a ver se vem um nome de um filho); ainda no mesmo sítio? (a ver se vem um emprego), e usar sempre, como nos exemplos anteriores, formas que não comprometam com o tu ou o você. Um dos meus maiores feitos: um amigo meu, antes de sucumbir ao vórtice matrimonial, acumulou, em sucessão legítima, um conjunto de namoradas todas elas de beleza rara (mil voltas e voltas que dei, mas uma sucessão daquelas não consegui encontrar, #ivette). Ora um dia, na rua, consegui manter uma conversa com uma, usando os dados de outra, sem nunca as perguntas e respostas se desencontrarem, exames que eram da faculdade converteram-se em exames médicos (então os exames, perguntando eu pelos últimos da faculdade, olha não estão grande coisa, vou repetir para a semana, até aqui tudo bem, mas os marcadores continuam altos, ora marcadores aqui eram de um cancro, não de um exame de educação visual, mas adaptei-me rapidamente); um Erasmus passou a uma viagem de férias; os irmãos batiam certo; tudo correu bem.

Mas por vezes corre mal. Nesta semana, depois de trocar sorrisos com um jovem da minha idade, de o cumprimentar, de estar convencido de que era uma certa e determinada pessoa, dei-lhe os parabéns pelo novo emprego. Não era. Era outro. Cá fora da igreja uma rapariga sorrisos, beijinhos, ah se calhar não nos conhecemos, diz ela, talvez por padecer do mesmo mal, talvez por querer poupar-me a eu não a reconhecer. Se eras um jovem adulto e uma jovem adulta (de cabelo curtinho) de cerca de 40 anos que estavas no dia 4 na Igreja de Santa Isabel nas celebrações e se reconhecem nisto, as minhas desculpas públicas, é da prosopagnosia.

O problema nas mais das vezes é as pessoas saírem-me ao caminho fora do seu contexto, e isto está mal da parte delas. O que faz um aluno sem ser numa sala de aulas? Um jornalista sem ser no jornal? Um amigo de verão sem ser no verão. E o pior de tudo, duplas duplamente fora do contexto? Por exemplo, um amigo de liceu entrar num restaurante com uma colega de faculdade, sem nunca terem avisado que se conheciam, são segundos eternos de sinapses estéreis a tentar encontrar relações, pistas onde elas não existem. Por favor, mantenham-se no vosso contexto ou tragam o contexto convosco. É que caras não é de caras, e com as mudanças de tempo fico sempre pior da prosopagnosia.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG