Escrevo no sábado, dia de festas de anos dos miúdos. Se estas até agora eram apenas desafios existenciais, agora são orgias fiscais. Começou com a coca-cola, agora a batata frita, para o ano talvez a gelatina e as gomas, ou até os caniches feitos em balões salsicha por um palhaço triste, que bem vistas as coisas comer aqueles balões não deve fazer nada bem à saúde. E já se sabe que estes impostos não é nada por dinheiro, é pela nossa saúde..Claro que na medida da sofisticação e intelectualidade dos pais já vai havendo nas festas alguma evasão fiscal: uma cenoura triste aqui, uma cenoura triste ali, ou até um brócolo envergonhado, escondido atrás de uns cupcakes azuis, ou mesmo uma frutita cortada numa taça intocada, lá atrás junto a um cemitério de copos de plástico com sumo a meio, que já se sabe que os miúdos não bebem nada até ao fim. Talvez com medo de um imposto sobre os copos de plástico para uso em festas de anos, há pais que, num planeamento fiscal que o tempo há de dizer se é ou não agressivo, já marcam os copos com uma caneta, Santiago este é o teu copo, OK, não o perdes, combinado, usas sempre este, e o Santiago a dizer que sim com a cabeça e a pensar também com a cabeça deves achar que vou beber seven up no copo da coca-cola, ou que me vou arriscar a voltar a este copo depois de ter estado vinte minutos no insuflável, em forma de castelo e com as mães dos mais novos apreensivas com o primo mais velho e mais gordo do aniversariante, que interrompe a ritalina ao fim de semana por recomendação da médica, para pena dos pais que não o confessam, com medo, as tais mães, de que quando ele grita bomba, e se atira como estivesse numa piscina, afogueado e os olhos revirados, aterre em cima do pequenito, que não é da sala do menino dos anos, o irmão é que é, ele é mais novo, é da dos quatro anos, mas também veio à festa, que não havia onde o deixar, o pai foi fazer BTT para Monsanto com o mais velho e não o quiseram levar, a mãe já a desconfiar de tanto BTT. Dizia, só na cabeça dos pais do menino dos anos é que o Santiago, sobrevivendo ao gordo do insuflável, volta à zona das comidas e vai usar o copo que diz Santiago, escrito com uma bela letra pelo amigo da mãe do menino dos anos, sujeito não só a misturar os sumos mas a ter tido o copo usado pelo Pedro, que como ainda não sabe ler pega em qualquer copo, ou pelo Vasco B. (para distinguir do Vasco M.), que come macacos do nariz e já teve herpes, que apanhou, disse a mãe dele à mãe do Santiago, da namorada do pai que não tem cuidado nenhum com a loiça..É preciso beber muita coca-cola para conseguir aguentar aquelas batatas fritas todas, e fintar os pais dos meninos dos anos que querem impingir racionamentos de um copinho de plástico com batatas fritas de cada vez, come primeiro estas. Não. Batatas fritas não se come em copinhos, come-se debruçado sobre a taça, empurrando para dentro da boca o que mais couber, mastigar sem fechar a boca, engolir, repetir, aguentando com o corpo, o rabo ligeiramente para trás, a pressão dos que se querem aproximar e os avisos envergonhados dos pais, já chega, deixa, depois comes mais um bocadinho, já deve estar quase a ser o bolo, como se alguma criança gostasse ou sequer comesse bolo dos anos..Mas isto era sobre o ISOACETDS, o imposto sobre os alimentos com elevado teor de sal, que está no Orçamento, mas que não é sobre o sal, muito menos sobre os alimentos com elevado teor de sal, nem sequer na verdade sobre alguns destes, é sobre as batatas fritas de pacote, as das festas de anos e do bar do colégio. Um imposto de base tão estreita que é tão inconstitucional como o da coca-cola, que era sobre o açúcar, mas acabou por ser só sobre algumas bebidas (como escrevi aqui, foi uma forma de honrar Salazar), e que tem, tal como o outro, o único objetivo de ir buscar mais receita, neste caso sobretudo às festas de anos, mas pela nossa saúde..Sou dos fiscalistas talvez aquele que mais gosta de impostos, mas impostos sobre o dinheiro, não sobre o saleiro (com arroz para não grudar com a humidade), muito menos sobre as batatas fritas, nem que me enganem com moralidades sanitárias..Mas se a esquerda parlamentar não me ouvir, que não vai, então que se lembrem das gabelas na Revolução Francesa, ou da Marcha do Sal de Gandhi, em 1930, contra um imposto britânico sobre o sal. E se a imagem de Gandhi, no final dos quatrocentos quilómetros de marcha, a apanhar os grãos de sal não vos comover, então tenho mesmo de puxar da carta atómica, invocar aquele que devia ser o ídolo de todos os revolucionários, para, proto, pseudo, meta e neo revolucionários desta nova esquerda: José Estêvão. E deixo-o falar, com o respeito que merece, da Câmara dos Deputados nos idos de 1834: "O imposto sobre o sal é um princípio condenado por todos os homens entendidos, fulminado nos Parlamentos, desacreditado em todos os scriptos scientíficos, condenado pelos factos; é uma idea que morreu." É "um imposto sobre a panella, sobre a mesa, sobre a cosinha, sobre o celleiro, sobre o lagar". E depois afeta os mais pobres: "A comida das classes baixas não tem outro adubo que não o sal; são farináceos, legumes, cousas pesadas; e, se não têm aquele único condimento, são um princípio vicioso de alimentação." Ah, permito-me interromper José Estêvão para lembrar que, lembrei-me agora, em Inglaterra se andou não sei quantos anos a discutir nos tribunais se as Pringles eram ou não batatas fritas para saber que imposto lhes aplicar. Mas, sim, é verdade, nas festas de anos não costuma haver Pringles.