Uma contradição insanável

Há uma contradição insanável por resolver no PSD e o congresso de Espinho manteve tudo na mesma: o líder do partido apresentou-se apoiado numa moção que promete "social-democracia, sempre" mas o líder do partido é na verdade, estruturalmente, apenas um liberal à portuguesa (ou seja, um liberal num país pobre que por isso é obrigado a fazer coisas não muito liberais como "enormes" aumentos de impostos). Um liberal que governou de 2011 a 2015 com políticas muito "além da troika" não porque precisasse delas mas sim porque acreditava nas vantagens de uma "austeridade virtuosa" para formatar o Estado à medida das suas ideias, à boleia de uma ideia de "situação de emergência". Se pudesse - e isso viu-se na proposta de revisão constitucional por si apresentada em tempos -, Pedro Passos Coelho faria um Serviço Nacional de Saúde só para pobres e muito pobres (e seguros de saúde para os outros) ou um sistema público de ensino só para pobres e muito pobres (e escolas privadas para os outros) ou uma assistência social só para pobres e muito pobres (e PPR para os outros), acabando com a natureza universal do Estado social. Ora isto, não é "social-democracia, sempre" - é "social-democracia, nunca". Da duas uma: ou o PSD continua liberal à portuguesa como foi de 2011 a 2015 - e aí justifica-se a manutenção de Passos na liderança; ou então volta a ser da "social-democracia, sempre" - e aí afasta Passos da liderança. O que não pode é ter as duas coisas, Passos e social-democracia, porque isso, falando curto e grosso, não passa de uma gigantesca mentira. Seria interessante, neste contexto, que o líder do PSD ensaiasse um procedimento novo: não pensar que somos todos burros. A lógica da sobrevivência individual explica muita coisa mas não pode valer tudo.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG