Penalizar quem mentiu - seja quem for

Até agora, o que sabemos, garantidamente, é que o incêndio de Pedrógão fez 64 vítimas mortais e mais de 200 feridos, dos quais nenhum morreu. A 65.ª vítima, revelada no sábado pelo Expresso, é considerada, segundo os critérios da justiça, como uma vítima indireta (morreu atropelada quando fugia do fogo) e portanto, por isso, não terá sido contabilizada (expressão horrível, eu sei) no balanço final. Podemos, evidentemente, pôr em causa os critérios da justiça, mas eles já existiam antes do incêndio e ninguém, que eu saiba, os pôs fortemente em causa. Sabemos também que a identidade das vítimas não é oficialmente revelada porque o Ministério Público (MP) a considera segredo de justiça. E depois que correm inúmeros rumores, alguns dos quais atiram o balanço geral para os três dígitos (mais de cem).

Ah, e também sabemos outra coisa. Que afinal aquele disparate fatal de Passos Coelho, com o suicídio que afinal não foi, representou não um erro momentâneo, mas sim um primeiro ensaio para um esforço que agora prossegue: o de fazer oposição ao governo pelo lado mais tenebroso do problema. Percorrendo as redes sociais e o que lá escrevem os apoiantes, assessores e dirigentes do PSD, percebe-se o entusiasmo com que surfam esta onda e as consequências que querem tirar dela: a demissão do governo. E se a verdade é clara ou se apenas se baseia em rumores longe de estarem confirmados (como se viu no caso de Passos e do falso suicídio), isso é completamente menor. A coisa vai ao limite de o novo líder parlamentar do PSD exigir ao governo que divulgue uma lista que o MP quer em segredo de justiça. Digamos que para um partido de poder, que é o maior no Parlamento, não está nada mal, no que toca ao respeito pelo princípio da separação de poderes.

Mas uma coisa o PSD já conseguiu: instalar a dúvida. Por mais que haja várias entidades públicas a atestar que foram 64 as vítimas mortais - sendo até uma dessas entidades o MP, independente do governo -, já serão muitas as pessoas a não acreditar nesse balanço. Incendeia-se o debate público com rumores espalhados boca a boca através desse poderoso megafone que é a internet, transportam-se os rumores para a imprensa convencional - e está o serviço feito.

Eu próprio já tenho dúvidas - esclareçam-nas então. E que haja consequências para quem enganou. Seja quem for, esteja em que lado estiver da barricada.

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