Façam a política, não a guerra

Os especialistas dizem que não há pior guerra do que uma guerra civil. Pelos efeitos de destruição que tem - como todas as guerras - mas também pelas feridas permanentes que ficam e suas consequências na reconstrução futura. Uma nação pode até tornar-se um potentado depois de uma guerra civil (é ver os EUA). Mas a verdade é que tudo o que dividiu as pessoas e as pôs a matarem-se umas às outras, indo a matança até ao microcosmos das famílias e dos vizinhos, fica sempre a borbulhar. E basta um radical populista sem escrúpulos chegar a uma posição dominante para esse fogo se atear novamente, se lhe der jeito (é ver os EUA hoje, novamente).

Com as devidas distâncias, é isso que está acontecer hoje no PSD: uma guerra civil à espera que das cinzas surja um líder populista que tire de vez o partido do centro onde tem de estar. O que se passa na nação laranja é um combate que ameaça escavar ainda mais fundo o buraco eleitoral onde o partido se enfiou nas últimas autárquicas.

De um lado temos o novo líder Rui Rio (cuja escolha de Elina Fraga só pode ser vista como simplesmente provocatória face à direção cessante). E do outro a fação afeta a Passos Coelho (que cede completamente às emoções quando se vinga da escolha de Elina proporcionando ao novo líder parlamentar, Fernando Negrão, um resultado que mata à nascença as poucas hipóteses de afirmação que ainda sobravam ao partido na AR).

Se Passos hoje não é líder do partido é porque Passos tramou Passos quando - entre outros fatores - tratou com enorme inabilidade o processo autárquico. E se Rio é hoje líder foi porque o passismo decidiu apostar num candidato, Santana Lopes, com um track record de derrotas eleitorais verdadeiramente imbatível, tanto dentro do PSD como fora.

Não me compete dar conselhos às partes sobre como hão de resolver o problema. Só digo o seguinte: não há nada pior para a democracia do que um PS sem a concorrência à sua direita do partido com que historicamente tem alternado na direção da ação governativa. Sem isso, a democracia fica fortemente amputada. Ter como alternativas ao PS dois partidos de esquerda antieuropeus (BE e PCP) ou um pequeno partido à direita (o CDS) em que a Europa é tratada de forma oportunista deixa sem opções os eleitores que sabem que só há caminho para Portugal dentro da UE (e que são a maioria). Além do mais, importa que haja um sistema polarizado entre partidos e não entre, de um lado, um partido (no caso o PS) e, do outro, o Presidente da República. Isto para já não falar da experiência que foi a maioria absoluta do PS. Enfim: organizem-se. Façam a política, não a guerra.

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.