A Princesa Leia morreu e Marcelo não disse nada

Estranhamente, o Presidente da República não comentou anteontem a morte da atriz norte-americana Carrie Fisher, que permanecerá para sempre viva nos nossos corações como a Princesa Leia da Guerra das Estrelas, irmã gémea do eterno Luke Skywalker.

Digo estranhamente porque no dia de Natal Marcelo Rebelo de Sousa achou por bem manifestar na página oficial da Presidência da República o seu "pesar" pela morte de George Michael, "um artista e compositor versátil e talentoso, com uma longa carreira de inequívoca qualidade" e que "tal como David Bowie e Prince, para mencionar apenas alguns que este ano nos deixaram, partiu demasiado cedo e de forma inesperada".

Com a ânsia de comentar em tempo real todas as notícias e mais algumas, Marcelo Rebelo de Sousa começa a parecer, nalguns momentos - como no "voto de pesar" por George Michael e para já não falar na sua patética iniciativa, evidentemente falhada, de salvar o Teatro da Cornucópia - que lê os poderes presidenciais de forma tão ampla que às vezes ultrapassa a fronteira do risível. É certo que, depois de Cavaco Silva, o país precisava de um Presidente que não tivesse medo de parecer humano, algo que manifestamente assustava o anterior inquilino de Belém. E, depois dos "anos da brasa" entre 2011 e 2015, faz todo o sentido a apologia do "afeto". Todos sabemos, além do mais, que a principal arma de que um Presidente da República pode dispor para enfrentar eventuais crises futuras é a sua popularidade - ou seja, dito por outras palavras, o poder que o povo lhe outorga, apoiando-o.

Mas, visto o frenesim das últimas semanas, a coisa começa a ultrapassar o tolerável. Sendo manifestamente exagerado falar em golpe de Estado constitucional, pode no entanto dizer-se que Marcelo Rebelo de Sousa já pisou o risco. Convém recordar que, no governo, só o primeiro-ministro é que é responsável perante o Presidente da República. Vem, clarinho como água, na Constituição da República (artigo 191.º) - um documento que o Presidente da República, eminente jurista, conhece bem. Portanto, por exemplo no ridículo "número" da Cornucópia, arrastando um atónito ministro da Cultura para uma "negociação" que toda a gente sabia falhada à partida, Marcelo foi além do tolerável. Ao ministro, o que safou para manter a compostura só pode ter sido a sua vasta experiência como diplomata.

Alguém então que diga a Marcelo Rebelo de Sousa uma evidência: o que molda os poderes do Presidente da República é a Lei Fundamental. Não é, nem nunca poderá ser, a popularidade e a consequente tolerância dos eleitores. Isso, em Portugal, não é ser Presidente da República - é ser caudilho. Portugal já passou por isso - e deu-se mal.

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