Com a cabeça enfiada na areia não se ouve nada

Se calhar é melhor explicar isto como quem faz um desenho. O que muda mais a sua vida? O aumento dos escalões do IRS ou a nomeação de duas pessoas para o Conselho de Finanças Públicas (CFP)? A correta remuneração dos pensionistas com carreiras contributivas de 40 e mais anos ou a escolha de dois administradores para o Banco de Portugal (BdP)? O aumento do salário mínimo nacional (SMN) ou os SMS que supostamente terão sido trocados entre o ministro Mário Centeno e o ex-administrador da CGD António Domingues?

Na direção do PSD a fúria é grande. Estranhamente, os jornalistas não estão a dar importância devida às importantes causas que o partido tem trazido para o debate público - e que são as tais questões relativas ao CFP, ao BdP e aos SMS, questões que, por junto e atacado, envolverão no máximo umas seis pessoas.

Só podem estar todos, claro, silenciados (e comprados) pelo poder socialista - diz-se (e escreve-se) no PSD. Porque se não o estivessem, os jornalistas certamente entenderiam que esses três interessantes dossiers são bastante mais relevantes do que coisitas menores que atingem vários milhões de portugueses (o IRS, as carreiras contributivas longas e o salário mínimo nacional, para já não falar de outras, como a integração nos quadros - privados e do Estado - de milhares de trabalhadores precários ou o descongelamento das carreiras da Função Pública).

Pessoalmente, compreendo o problema do PSD. O que domina a atual agenda política continua a ser a desconstrução de muito do que foi feito na legislatura 2011-2015. Mas isso, só por si, não é razão para não ter ideias sobre estes assuntos, achando, ainda para mais, que não interessam nada a ninguém e portanto não deveriam ser valorizados.

Ainda não passou pela cabeça de ninguém na São Caetano à Lapa que é possível, em simultâneo, falar de mais do que um assunto? Que é possível agitar a bandeira da "claustrofobia democrática" e, ao mesmo tempo, ter um pensamento consistente sobre fiscalidade, pensionistas, salário mínimo, precariedade, remuneração da Função Pública, etc?

Aparentemente, não há quem avise a direção do PSD da profunda cegueira que se revela num partido que centra todas as culpas não em si mas no panorama mediático - num estranho eco do comportamento de Donald Trump, aliás. Não há quem avise e até é compreensível: uma pessoa com a cabeça enfiada na areia não ouve nem se faz ouvir.

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