Contemplação e ritmo

Não foi por acaso que, nos primeiros meses de 2017, o filme La La Land se impôs como novo pólo de uma velha interrogação: estamos, ou não, a assistir a um relançamento da nobre tradição do cinema musical? É mesmo uma velha discussão, uma vez que a idade clássica do género se encerrou, há mais de meio século, com títulos como West Side Story (1961) ou My Fair Lady (1964): extinguiu-se a produção regular de musicais e cada nova proposta nesse domínio parece transportar, ainda que involuntariamente, algum desejo de futuro.

O Grande Showman é tanto mais fascinante quanto sabe cruzar os artifícios do musical com o misto de história e mitologia que a biografia de P. T. Barnum atrai. Este retrato do lendário empresário de circo confirma mesmo uma insólita tendência de alguns musicais produzidos ao longo do século XXI. Na verdade, títulos tão variados como Ray (sobre Ray Charles), Walk the Line (Johnny Cash), La Vie en Rose (Édith Piaf), Jersey Boys (The Four Seasons) ou Love & Mercy (Brian Wilson) parecem definir um conceito criativo segundo o qual a abordagem de determinadas personalidades artísticas envolve a possibilidade de transfiguração e reinvenção de algumas matrizes do género musical (por mim, acrescentarei apenas que Jersey Boys, realizado por Clint Eastwood, me parece um dos grandes filmes americanos desta década).

A estrear-se na realização com O Grande Showman, Michael Gracey consegue mesmo resolver um problema de linguagem que afetou, por exemplo, o ambicioso Nine (2009), de Rob Marshall, com Daniel Day-Lewis. A saber: como integrar alguns conceitos de montagem vindos dos telediscos sem alienar a estrutura clássica do musical? Dir-se-ia que Gracey encontrou o equilíbrio justo entre a exuberância do ritmo e o gosto da contemplação.

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