Uma missa pelo parto de Salazar

Há 130 anos nascia António de Oliveira Salazar e, sabe-se lá porquê, alguém decidiu encomendar uma missa pela sua alma para assinalar tal data. Tudo aconteceu no passado domingo 28 de abril, o mesmo dia de aniversário de nascimento no longínquo ano de 1889, na Igreja São João de Deus, em Lisboa.

Nada muito habitual pois já não existem contemporâneos seus que possam evocar esse dia, afinal o senhor morreu há 48 anos, além de que os parentes aproximados não iriam escolher logo esta paróquia da capital para assinalar a data. Até porque o momento das missas em que se pede pela alma do falecido costuma ser mais por ocasião da morte e não do nascimento, e para 27 de julho ainda faltam algumas semanas!

Tudo se passou assim: chegou o momento de celebrar essa parte da missa e a jovem que estava a ler foi recitando os vários nomes. Começou pelas mortes mais recentes, foi andando para trás e, a dado momento, nota-se que hesitou alguns instantes... Retoma a lista e sai-lhe um inesperado "António de Oliveira Salazar". Ou é um homónimo ou seria a saudação de um saudosista que quis fazer notar que apesar de o 25 de Abril ter sido comemorado três dias antes não se esquecera do governante e do fim do regime que ele protagonizou (mais Caetano) pelo mesmo tempo que já tem de morto.

As testemunhas desta missa em que Salazar veio em peregrinação até ao presente sentiram na nave tripartida da igreja da Praça de Londres um momento de suspense como não é muito habitual, tendo os participantes ficado bastante surpreendidos com aquele nome a ecoar nos altifalantes do templo e, depois de olharem para quem estava ao lado a questionar se tinham ouvido bem ou era um eco desconexo, observaram-se uns aos outros para confirmarem se tinham ouvido mesmo o tal nome.

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