Os troncos de Doha

Como tudo no Qatar, atravessa-se algum deserto para lá chegar. E o Centro Nacional de Convenções de Doha, nos arredores da capital do emirado, não escapa a esse destino de saltar do fundo da areia e ficar a pairar como uma verdadeira miragem arquitetónica sobre a paisagem. Quando se o vê pela primeira vez fica-se como aqueles saloios que se deslumbram com maravilhas nunca vistas no seu território, é que ao aproximar-se da enorme estrutura descobre-se que está apoiada em dois grandes troncos.

Claro que não são troncos de madeira, mas longas estruturas de betão que imitam uma das formas menos uniformes da natureza. Cada árvore cresce em função de outras razões que não o desejo de um arquiteto que desenha colunas neste formato, numa homenagem a uma árvore sagrada para o islão. Que repete o formato dessas colunas no interior do edifício como se de uma árvore entrássemos na floresta. A pergunta que se segue é "porquê?".

Aliás o "porquê?" atravessa constantemente o visitante no Qatar, porque os arquitetos vão para ali fazer os seus laboratórios de criatividade e construir todo o tipo de loucuras sem regras e que só em certas partes do mundo têm lugar. Foi o que fez o arquiteto Arata Isozaki, o vencedor da edição do mais recente Pritzker - que para facilitar diz-se ser o Nobel da arquitetura - com os seus troncos e o que uma mão-cheia de colegas replicam ao preencher a marginal de Doha com um estranho catálogo de visões moldadas pelo homem e elevadas por milhares de imigrantes sem direitos.

O anúncio frequente de prémios faz que passemos muitas vezes ao lado da importância da notícia, mas a atribuição do mais recente Pritzker permitiu saber - ou recordar - o que o motivou no início da carreira através de um detalhe biográfico: "Nasceu em 1931 na ilha japonesa de Kyushu e tinha 14 anos quando lançaram as bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáqui". Em tempos confessara que a sua arte se liga à infância: "Cresci num ground zero" que "estava repleto de ruínas e onde não existia arquitetura".

Os troncos que sustentam esta miragem árabe estão justificados.

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