Até que ponto a história cabe num século de cinema por João Lopes

A página de apresentação do livro Cinema e história - aventuras narrativas do crítico de cinema João Lopes explica imediatamente ao que se vai nas restantes páginas, repletas de episódios exemplares sobre esta arte. Nada que os leitores do Diário de Notícias não pressintam ao pegar em mais um volume da coleção de ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, pois a sua presença nas páginas deste jornal enquanto crítico de cinema certifica que conhece bem a matéria-prima que trabalha. Mesmo que nessa página inicial o autor avise que o "cinema não deve ser encarado como máquina de "reprodução" ou "ilustração" de um saber já garantido pelos livros de história". Muito pelo contrário, afirma, "o cinema foi uma via de reconversão e recriação dos próprios modos de fazer história".

É isso que se vai perceber sobre, por exemplo, o efeito do cinema dando o exemplo de Auguste e Louis Lumière, que, ao exibirem o seu filme L"Arrivé d"Un Train en Gare de La Ciotat no verdadeiro início da produção cinematográfica, assustaram muita gente com as imagens de um comboio a ir em direção aos espectadores. Não "assustaram" a história, como assinala ao referir a exibição do filme Geada, do lituano Sharuna Bartas, pois neste filme apresentado em Cannes no ano passado debatia-se a grande questão de até que ponto quando se filma a história ela cabe na narrativa cinematográfica. João Lopes continua e compara a impossibilidade de O Último Imperador de Bernardo Bertoluci fugir a essa categoria de filme histórico, contrapondo o facto de o filme de Clint Eastwood, American Sniper, dificilmente ser olhado como um documento.

Os exemplos não se ficam por aqui, e segue-se o caso de Braveheart: O Desafio do Guerreiro de Mel Gibson e o de O Menino Selvagem - de Truffaut -, em que ambos regressam a tempos históricos, mesmo que a perceção e reação do espectador perante a memória exposta seja bastante diferente.

Antes de fazer desfilar uma amostra impressionante de filmes que tratam deste binómio cinema/história, João Lopes não deixa de provocar o leitor com um capítulo intitulado O caso Oliveira. Trata-se, claro, de Manoel de Oliveira que numa conversa nas instalações da Cinemateca Portuguesa faz uma afirmação polémica: "O cinema não existe." É a vez de o autor deste ensaio trazer ao palco a representação teatral que, para Manoel de Oliveira, é uma arte que está na base de tudo o que chega ao ecrã: "O cinema existe como processo audiovisual de fixação, o cinema fixa o teatro." Uma opinião que consagra a forma de o cineasta executar o seu cinema desde o início da sua filmografia, sempre focado no envolvimento com a história da humanidade.

A questão da história nunca deixa de ser o fio condutor deste ensaio, vindo a análise até aos tempos contemporâneos, com o caso da televisão que se "impôs como a instituição que define a nossa historicidade e se apropriou dos poderes do cinema". Não será por acaso que o autor evoca uma entrevista que fez a Jean-Luc Godard em 1991 e que, ao perguntar sobre as relações entre cinema e televisão, o realizador francês resumiu a sua opinião numa "metáfora militar": "O meu país foi ocupado pela televisão."

Entre os filmes que, repita-se, desfilam nestas páginas estão títulos memoráveis: começa com Intolerância (1916), de D.W. Griffith, e termina com A Morte de Luís XIV (2016, de Albert Serra. Pelo meio, não faltam grandes filmes para os relacionar com a história.

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