39 Degraus

E quando evitamos confirmar os factos para não estragar a ilusão...

Quem vai à Cinemateca em Lisboa confronta-se com vários cartazes de filmes antigos, mas não é isso por agora que interessa. Há no primeiro piso um restaurante chamado 39 Degraus, para o qual o cliente (ou cinéfilo) tem de subir uma escada com imensos degraus. Creio que será devido a essa quantidade de degraus a razão de o espaço gastronómico ter esse nome, mas não é preciso pensar muito para imaginar que haverá outra justificação: The 39 Steps. Ou seja, o título de um filme de Alfred Hitchcock.

Ao longo das vezes que tenho subido esses degraus senti sempre vontade de os contar para confirmar se a analogia confere, mas evito fazê-lo para manter no imaginário essa suspeita. Algo tão curioso como o facto de ser difícil imaginar que o filme é anterior à própria Cinemateca. O primeiro estreou-se em 1935 e a segunda abriu portas em 1948.

The 39 Steps é um thriller que descreve o equívoco vivido por um cidadão londrino que é acusado de matar uma agente da contraespionagem militar britânica. Tudo acontece de um modo
hitchockiano: num teatro de Londres está um espectador a assistir a uma demonstração dos poderes do Senhor Memória, quando se escutam vários tiros. Há uma fuga do local e o cidadão acaba no apartamento de Annabella, que lhe confessa que é espia e querem assassiná-la. Horas depois, a mulher morre e o homem é obrigado a fugir e a esconder-se em vários sítios.

Quando há duas semanas voltei a subir esses degraus, mantive a habitual resistência em os contar e continuo sem saber quantos são. Ao pensar nessa teimosia, pergunto se esta não é a melhor forma de manter a ilusão, aquela que o cinema também oferece ali na Cinemateca. Mas não deixo de pensar que, se Alfred Hitchcock entrasse no edifício, a primeira coisa que faria seria contabilizar os degraus e confirmar se a sua pegada teria chegado a Lisboa além dos próprios filmes. Esse não ia em ilusões!

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