Uma era de vingadores

Para compreender esta época, há lições valiosas no filme Vingadores: Guerra do Infinito (Avengers: Infinity War; aviso: este texto revela enredo). Ignorado pelos intelectuais e desprezado pelos críticos como palhaçada de super-heróis, o filme teve a maior receita de sempre no fim-de-semana inicial (ver www.boxofficemojo.com) e, apesar de ter estreado só a 27 de Abril, já é o quinto filme mais bem pago da história. Isto mostra não ser escolha de jovens, mas geral. Esta é uma era de vingadores.

Se, motivado por isto, tentar ver o filme, descobrirá que não entende nada, por ele ser para iniciados. Trata-se do 19.º episódio de uma séria intitulada Universo Cinematográfico Marvel, que, lançada em 2008, igualará em 13 anos (2020) as 24 películas que a longa saga James Bond já produziu desde 1962. Ainda inclui inúmeros livros e séries paralelas, e não se sabe quando acabará. Ou seja, apesar de ser o mais visto de sempre, o filme dirige-se apenas a entendidos, que se esforçaram muito para conhecer todas as personagens, eventos, ligações e alusões que o compõem. Esta época de Facebook/Twitter/YouTube é composta por fãs cheios de tempo livre, investido em ficção.

Outro elemento marcante é a natureza da aventura, com personagens fantásticas, carregados de superpoderes, o que encaixa na tendência do cinema. Se aos super-heróis oficiais (Marvel e DC) juntarmos a maior bilheteira de sempre, Avatar de 2009, também uma história de superpoderes, e outras sagas de magia e forças alienígenas (Star Wars, Harry Potter, Transformers, Piratas das Caraíbas, Shrek, Senhor dos Anéis e Twilight), vemos que ocupam sete lugares do top 10 de receita, 31 do top 50 e 57 do top 100 (ajustado pela inflação, e só nos EUA os números são 1, 13 e 27 respectivamente, e o filme no topo é outro: E Tudo o Vento Levou, de 1939). Isso é apenas nas longas-metragens; no campo das séries e dos videojogos, onde tanta gente passa tanto tempo, o domínio é ainda maior. A nossa era vive num mundo sobre-humano.

Outro aspecto é o enredo não ser original. Trata-se da adaptação de uma banda desenhada, The Infinity Gauntlet, publicada em 1991. Também aqui a obra acompanha a tendência geral. O cinema de grande audiência deixou de ser campo de criatividade, limitando-se a copiar outras formas de arte e, até, repetindo-se a si mesmo nas infindáveis sequelas. De certa forma, isso também caracteriza a nossa era. Apesar de andarmos maravilhados com as novidades tecnológicas, elas pouco mais fazem que reproduzir velhas realidades. Facebook/Twitter/YouTube não passam de versões electrónicas da antiga coscuvilhice na lojeca da aldeia, a qual também andava cheia de fake news.

Considerando agora o enredo deste campeão de bilheteiras, destaca-se a sua ambiguidade moral. Aqui os heróis não enfrentam psicopatas, zombies ou monstros, truque habitual que força a antipatia automática com o lado mau. Thanos, o supervilão de serviço, não é um maléfico acéfalo mas líder benevolente, preocupado com o desequilíbrio ambiental na galáxia, causado por excesso de população. Os fins não podiam ser mais nobres, mesmo se criticável o uso de genocídio como método para evitar a catástrofe. Ou seja, aqui maus e bons não sabem bem de que lado estão.

O aspecto mais perturbador do filme, aquele que o distingue do género e lhe dá um realismo sinistro, é a vitória total do vilão. Apesar dos esforços denodados de uma plêiade de maravilhosos super-heróis, incluindo algumas das maiores estrelas do género, o terrível Thanos consegue todos os seus intentos, e até de uma forma bastante rápida e serena. Metade da população do universo desaparece num estalar de dedos. A cena final, com o tirano sentado gostosamente a ver o nascer o Sol (algo que previra como sinal de triunfo absoluto), faz inevitavelmente lembrar a figura de Donald Trump na Sala Oval.

O filme surge precisamente no momento em que um presidente americano, pela primeira vez na história, se declara oficialmente disposto a usar violação de tratados, guerra comercial e até armas nucleares para conseguir o propósito supremo de "Make America great again". E vence indiscutivelmente, com muitos a apoiá-lo. No filme, o sucesso vai ao ponto de fazer desaparecer alguns dos heróis favoritos, como Homem-Aranha, Pantera Negra, Doutor Estranho e Guardiões da Galáxia. Como podem os fãs suportar tal devastação?

A verdade é que todos saem do cinema com a sensação de que as coisas não ficam assim. Os heróis regressarão (o próprio filme alude à possibilidade) e vencerão. Isto, mais um traço do universo surreal do género, traz consigo um grão de sabedoria. Esta era de vingadores, que tem em Trump, Xi Jinping e Putin os supervilões, está a entrar numa fase bastante assustadora. Mas nós, assim como os espectadores do filme, não podemos perder a esperança. É possível que venhamos a passar por uma terrível calamidade, como nos anos 1930-40, mas no final o bem e a justiça só podem triunfar.

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