Terror à portuguesa

O terrorismo é um dos grandes flagelos actuais. A crueldade arbitrária contra inocentes em nome de valores abstractos, que sempre existiu, tornou-se global. Acaba de ser publicado em Portugal um original ímpar com perspectivas inesperadas: Luta Armada, de Isabel do Carmo (D. Quixote, Outubro 2017) é uma obra impressionante, balanço de uma carreira excepcional e olhar inteligente, honesto e profundo sobre a experiência nacional, enquadrada na internacional.

O grande valor está na busca da humanidade dos operacionais, descrevendo medos, amores, divertimentos, família, crenças, sofrimento. Além disso, independentemente dos métodos, ressalta a grandeza da luta generosa contra a injustiça, miséria, tirania e discriminação. Também se destaca a candura na análise dos motivos: "Muitos de nós têm vergonha de ir ao fundo das questões em relação ao início dos nossos comportamentos militantes" (p. 93); "a questão da revolução socialista e o socialismo apareceram tardiamente" (p. 300).

O livro tem ambições teóricas. Mas a tentativa de provar a naturalidade da violência, invocando fontes tão variadas como a Bíblia, Konrad Lorenz ou os fósseis Neandertal (28-41, 204, 258, 286), não parece dar-se conta de que, deste modo, justifica qualquer crime, incluindo aqueles contra os quais luta. Todos os desmandos constam dos textos religiosos, estudos antropológicos e achados arqueológicos, que nunca negaram o mal como parte da natureza humana, junto com bondade, moral e civilização. Centrar-se naquele e omitir estas é perder o essencial desses textos, estudos e achados. Assumidamente até a moral e civilização recorrem à violência. Por isso surpreende outra omissão, a da milenar filosofia da "guerra justa", que pondera e classifica tais circunstâncias. O que apenas manifesta os limites da orientação jacobino-marxista de que o volume é herdeiro e o abismo que a separa da tradição cultural ocidental.

Outro facto evidente é a flagrante ignorância acerca dos adversários, todos despachados sob classificações estereotipadas de "fascistas", "exploradores capitalistas" ou "católicos ultraconservadores", sempre mentecaptos e perversos. Ao lado de uma minuciosa discriminação das ínfimas variantes ideológicas da esquerda surge um quadro simplista e rudimentar, seja das condições objectivas das conjunturas seja dos propósitos, orientações e finalidades do campo oposto. Esta cegueira e desrespeito, se facilita empenho e solidez ideológica, tem de criar problemas à análise e decisão políticas.

A novidade mais surpreendente é a explícita recusa do sangue: "As três organizações aqui visadas - LUAR, ARA e Brigadas Revolucionárias - tiveram desde o início o propósito de não fazer atentados a pessoas, mesmo aos piores inimigos, e assim foi" (16 e 38, 62, 297, 544). Este facto, classificado como "excepcional que foi no panorama dos grupos armados" (16), não é típico lusitano, como mostra a experiência das FP-25 após a ditadura, mas é inesperado e muito significativo.

Estranha-se que o livro não se debruce mais sobre o tema, explicando motivos, analisando consequências, custos e alternativas. Esta opção, embora decisiva por evitar a presença de fantasmas na memória, não chega para justificar a rejeição do epíteto de terrorismo (118, 203). De facto, as acções só tinham efeito pelo medo que suscitavam, precisamente porque o público não conhecia esse voto de não matar. Por outro lado, na segunda parte do livro, que resume 200 anos de luta armada mundial, com detalhe na Europa dos anos 1960-70, o sangue corre com abundância sem o repúdio, e até com aberta simpatia da autora. O livro faz um esforço corajoso e razoavelmente convincente para mostrar as diferenças dessa luta armada para o terrorismo islâmico (685-688). Mas o que mais perturba a população são as semelhanças.

A pior falha do volume é o olvido do que deveria ser o elemento básico. Repetidamente é afirmado o dogma primordial: inevitabilidade da luta armada no derrube do capitalismo. O PCP é sucessivamente zurzido por evitar esses meios. Mas tal axioma nunca é passado pelo crivo da dialéctica materialista, ponderando a eficácia do instrumento; provavelmente porque tal forçaria a constatação da sua factual irrelevância. A história acabou por mos- trar a efectiva inanidade da orientação a que estes revolucionários, apaixonada e ingenuamente, dedicaram a vida. Pior, apesar de admitirem que a revolução socialista foi sempre traída (295), até pela URSS e China, e que a sociedade pretendida "não existia em lado nenhum" (301), ainda hoje não lhe conseguem ver os fatais defeitos. A finalidade simples das acções é sempre "virar o mundo do avesso" (558), sem nunca se perguntarem se o reverso será melhor.

Neste quadro torna-se quase patética a conclusão de Carlos Antunes, que aliás coincide com a do marxista britânico Eric Hobsbawm na entrevista em The New Century em 2000: hoje "o único que fala dessas coisas é o Papa" (259).

Professor universitário

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