Poder ir à China

Um velho provérbio do planeta Vulcano diz que "só Nixon podia ir à China" (citado pelo capitão Spock no filme de 1991 Star Trek VI: The Undiscovered Country). Podemos dizer igualmente que só Trump podia ir à Coreia do Norte. Ou, para ser mais exacto, a Singapura conversar com o líder da Coreia do Norte.

O paralelo entre os encontros históricos de 21 de Fevereiro de 1972 e 12 de Junho de 2018 é sólido e importante. O elemento decisivo é, simplesmente, que tenham acontecido. Isso muda tudo. Muitos têm criticado nos últimos dias o pouco que se conseguiu no documento final de Singapura, e aquilo que foi preciso ceder para tão magro proveito. Mas, por ínfimo que seja o resultado, o encontro insólito, agora como há meio século em Beijing, vale imenso. Dialogar é caminho para a paz, para a conciliação, para o progresso. Esta é uma grande lição que Nixon e Trump ilustram ao atreverem-se a falar com os líderes mais odiados do seu tempo.

Mao Zedong e Kim Jong-un passaram longos anos como párias da cena internacional, sendo trazidos à respeitabilidade por encontros com presidentes norte-americanos. As razões para o desprezo generalizado são, em ambos os casos, esmagadoras e arrepiantes. Aquilo que eles fizeram aos seus povos é infame, mesmo pelos hipocritamente tolerantes níveis da diplomacia. Nenhum político que se preze quer apertar a mão a ditadores tão sangrentos. Só personagens excêntricas e controversas, como Nixon e Trump, se atrevem a tal. Mas dialogar, mesmo com criminosos do calibre de Mao e Kim, é em geral boa ideia. Pelo contrário o desprezo, ainda se largamente justificado, é mau conselheiro. Há 46 anos, o breve diálogo entre Nixon, ainda longe de Watergate, e Mao, já debilitado pela doença, lançou um caminho promissor. Esperemos que se repita na Península Coreana.

A lição de insistir no diálogo, até em condições quase impossíveis, é decisiva nas relações internacionais. Nos dias que correm ela precisa de ser crescentemente lembrada. Por exemplo, ao presidente americano Donald Trump, depois da sua lamentável prestação na cimeira do G7, de 8 e 9 de Junho no Quebec.

Aqui surge o segundo elemento da comparação. Nixon teve um gesto lúcido, ousado e magnânimo quando se dispôs a visitar a China na semana de 21 a 28 de Fevereiro de 1972, derrubando muros intransponíveis e estabelecendo pontes com lugares distantes. Infelizmente, essa atitude generosa e grandiosa, que ficará gravada na história, acabaria por se revelar a excepção, não a regra no mandato do republicano. O respeito e a abertura que o presidente demonstrou com o remoto chinês raramente surgiram nas suas relações com os mais próximos, o que acabaria por levar à sua queda. Os sintomas repetem-se, em pior, com o milionário que hoje ocupa a Casa Branca. Os motivos, em ambos os casos, são semelhantes.

Trump, como Nixon, não tem dificuldade em ser cordato e amável com um líder de uma potência afastada. Até porque consegue uma prova sólida da sua capacidade de estadista, que agora ninguém pode negar. Na sua quotidiana sessão narcisista frente ao espelho, deve aparecer como grande líder, candidato ao Nobel da Paz, que Nixon nunca ganhou. Aquilo que ele é incapaz é de chegar a acordo com os países aliados próximos, com os adversários no Congresso ou até com colegas no Partido Republicano. É fácil ser cordato com os longínquos. Difícil é amar o próximo.

Donald Trump, apesar de escrever, com o jornalista Tony Schwartz, o livro Trump: The Art of the Deal (Random House, 1987), ignora os princípios básicos da negociação. O encontro em Singapura prova-o. Na verdade, não houve verdadeira negociação em Singapura, pois Kim Jong-un conseguiu tudo o que queria. Quebrou o isolamento, teve uma sessão paritária com o líder mundial e até obteve um inesperado fim das operações militares conjuntas entre EUA e Coreia do Sul. Em troca assinou uma declaração, da dimensão de oito tweets, em que se compromete apenas a "trabalhar no sentido da completa desnuclearização da Península Coreana". Trump, pelo seu lado, para lá do brilharete, tão valioso diante do espelho, não trouxe nada de significativo. Fraco resultado para um alegado mestre de negociação.

Aqui se vê a fraqueza que se esconde por detrás da capacidade de "ir à China". Há dois tipos de audazes - os que o são por virtude e os que o são por desespero. Trump, como Nixon em 1972, não é o grande geoestratega que, no quadro de um plano de paz e progresso globais, decide dar a mão ao pária. É antes um líder que, crescentemente isolado pela sua incapacidade em dialogar com os próximos, se vira para os marginais para conseguir assinar acordos. Este sucesso, que aliás é mais magro do que o de 1972, não é realmente sinal de poder mas de fragilidade. Precisamente porque lhe está a correr tudo mal nos tabuleiros nacional e ocidental, Trump tem de lançar mão de um desesperado gambito coreano para obter algo de significativo no balanço do mandato.

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