Parede estilhaçada

Portugal é a única democracia desenvolvida sem terramotos eleitorais na última década. Os resultados dos sufrágios de 2009, 2011 e 2015 reproduziram os padrões tradicionais nos partidos clássicos, enquanto os novos movimentos se dissipavam sem efeitos. Apesar disso, o panorama político nacional foi revolucionado, mas por uma simples decisão, tomada por António Costa no quadro das últimas eleições.

A aliança parlamentar entre PS, PCP, PEV e BE não só transformou uma derrota eleitoral num sucesso governativo mas, mais importante, mudou para sempre o xadrez político nacional. Foi estilhaçado o velho axioma da existência de uma parede de vidro que, situada imediatamente à esquerda do PS, separava os "partidos do governo" da extrema-esquerda antidemocrática e antieuropeia. Esta tese, indiscutível durante 40 anos, foi pulverizada, o que marca para sempre o nosso futuro político. Não necessariamente da forma que se previa.

Álvaro Cunhal falava em 1985 de "um partido com paredes de vidro". A imagem servia também para marcar a barreira invisível que o afastava do poder. A tese consensual era que a extrema-esquerda, assim que lhe fosse permitido influenciar o governo do país, poria em causa a economia de mercado, a integração europeia e outros pilares básicos da democracia ocidental. Hoje sabemos que essa ideia, tão evidente e indiscutível, é falsa. Mais de dois anos após os históricos acordos de 10 de Novembro de 2015, tudo permanece normal. Pelo contrário, pode dizer-se que quem mais sofreu com o fim da parede foi precisamente a orientação ideológica radical.

A jogada de António Costa foi tacticamente genial. Parecia ficar dependente dos caprichos revolucionários, mas, na verdade, envolvia-os numa rede de sedução que se revelaria paralisante. O Partido Socialista, apesar de claramente minoritário, pode fazer o que quiser graças a um subtil poder de chantagem sobre os parceiros. Na verdade, PCP, PEV e BE nunca recusarão o apoio ao executivo, pelo menos nos momentos decisivos, sem serem acusados de provocar o regresso da odiada direita. Como além disso estão ansiosos por exorcizar a sua imagem de trolls antidemocráticos, vão abandonando a ideologia na gaveta. Propostas como reestruturação da dívida pública, reversão programada das privatizações, controlo público da banca, imposto sobre as grandes fortunas, libertação da submissão ao euro, entre tantas outras que eram centrais nos programas eleitorais de 2015, foram tranquilamente esquecidas. Em vez disso, apoiam aquilo que, se estivessem na oposição, acusariam de "política de direita do PS": cumprimento das regras europeias, manutenção das leis laborais e de todos os pilares do regime que andaram 40 anos a criticar. Afinal, a política deste governo tem sido praticamente igual à que seria se o PS tivesse maioria absoluta.

Este primeiro facto inesperado da nova conjuntura política é o mais visível. Mas existe um outro, também ele totalmente diferente da análise anterior a Novembro de 2015, que terá certamente muito mais consequências. Porque esta surpreendente mansidão da esquerda revolucionária teve, como não podia deixar de ser, um efeito nos eleitores desse espectro político. Se, uma vez no poder, PCP, PEV e BE são iguais ao PS, para quê votar nesses partidos? De facto, a consequência eleitoral não se podia fazer esperar.

Afinal, em 2017 acabou por haver um pequeno terramoto político: a derrocada autárquica da CDU, que perdeu dez das 34 câmaras que tinha. O choque é muito mais significativo do que pode parecer. O PCP é uma singularidade histórica, um partido estalinista que se mantém relevante numa democracia ocidental. Consegue-o baseado em dois pilares, o sindical e o autárquico. O encantamento de António Costa parece, para já, ter abalado o primeiro.

Vai ser muito interessante ver o que fará o partido de Jerónimo de Sousa. Uma possibilidade razoável seria reconstruir a parede de vidro, para proteger a pureza ideológica e a estratégia política originais, que funcionaram tão bem durante 40 anos. Mas isso agora é mais difícil, pois, após ter perdido a virgindade do poder, não é credível continuar a invocar indisponibilidade para apoiar o PS. O qual, impiedoso buraco negro, atrai inexoravelmente tudo para a sua órbita. O facto de o Bloco de Esquerda parecer feliz por ocupar para o PS o lugar que o CDS tem no PSD deixa o PCP, seu tradicional adversário, numa posição ainda mais delicada.

Este é o aspecto que, apesar de ser agora óbvio, ninguém antecipou: a voz original dos revolucionários, que se ouviu durante 40 anos, só se podia manter enquanto estes nunca tivessem de lidar com os problemas reais. Uma vez sentados à mesa do poder (ou, pelo menos, na fila de trás do apoio parlamentar), as necessidades concretas invalidariam impiedosamente os atrevimentos radicais. Afinal, a parede de vidro protegia, não o país da extrema--esquerda, mas a extrema-esquerda de si própria.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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