O regresso dos profetas

Saber o futuro é algo que a humanidade sempre quis. Por isso nunca faltou quem diga saber o que irá acontecer. Antigamente chamavam-lhes feiticeiros ou profetas. Hoje são futurólogos, e muito menos credíveis.

A religião já não pretende ter a antevisão deste mundo pecador. Na escritura judaica, Deus ficou silencioso após Malaquias, o último dos profetas bíblicos, e a sua revelação definitiva, em Jesus ou Maomé, dispensou tais mensageiros. Claro que persistem horóscopos e adivinhos de muitas proveniências, mas o seu prestígio decaiu com o avanço da civilização. Por isso surpreende a enorme quantidade de pessoas que, em conferências pomposas ou conversas de café, afirmam conhecer a evolução próxima do planeta. Com a agravante de, ao contrário dos antigos videntes, não afirmarem ter informações transcendentes ou encantamentos poderosos. Limitam-se a garantir que, só por serem mais espertos do que nós, conseguem ver o que aí vem.

O ponto de partida de todas essas antevisões é sempre igual: o mundo mudou radicalmente, e ainda mudará mais nos próximos tempos. Por isso tudo o que sabemos acerca da realidade deixou de ser válido. Em todos estes cenários é sempre palpável o orgulho pela superior inteligência que deslumbra as massas ignaras. Faz parte do exercício uma implícita comiseração pela ingenuidade do cidadão comum, continuando na vidinha de sempre, desconhecendo as certezas que o iluminado orador prevê com segurança.

É espantoso como, em geral, esses especialistas não se dão conta de que o seu postulado destrói tudo aquilo que eles dirão em seguida. Se o mundo está a mudar assim tanto, se é ambíguo, volátil, complexo e incerto, então, por muito espertos que eles sejam, as previsões são virtualmente impossíveis. Uma das poucas certezas, em situação tão extrema, é que tudo o que é antecipável com os nossos dados não se verificará. Assim, aquilo mesmo que destaca os futurólogos dos analistas comuns é precisamente o que invalida as suas conclusões.

Basta ler a ficção científica das décadas passadas acerca do mundo actual, muitas delas concebidas em tempos bastante mais serenos, para notar como esses esforços falharam fragorosamente. Ora, hoje, precisamente pela aceleração do desenvolvimento, a taxa de mortalidade dos cenários aumentou imenso e os prognósticos feitos há poucos anos já estão totalmente ultrapassados. Como podem convencer-nos de que os de 2018 serão válidos?

Depois de nos assegurarem que são capazes de compreender algo que o comum dos mortais não entende, seguem-se as conjecturas, e essas existem para todos os gostos. A tecnologia, que nestas coisas é sempre a protagonista, vai trazer-nos avanços inacreditáveis ou perigos avassaladores. Por isso, desde os paraísos mais maravilhosos às piores catástrofes, há de tudo nas visões dos futurólogos profissionais ou amadores. Em geral, essas visões mais não são do que extrapolações de realidades actuais que, por muito recreativas que sejam, permanecem bastante ociosas.

Mais importante, esses visionários costumam esquecer dois aspectos essenciais. O primeiro é que o homem é o que é. Certos traços da humanidade ressurgem sempre, mesmo em envolventes muito diferentes. Dentro de si, o ser humano não mudou muito desde as cavernas, até quando usa apps ou sabe cindir o átomo. Por isso o mundo nunca é tão ambíguo, volátil, complexo e incerto quanto dizem. O segundo é um princípio económico elementar: as pessoas reagem a incentivos. Quando as condições mudam, os comportamentos ajustam-se, mesmo daqueles que não ligam a previsões brilhantes, invalidando as conclusões deduzidas a partir da sociedade actual.

O pior desta atitude progressista é a moral anexa: o novo é bom, o passado está morto. Por isso, quando alguém diz ter o futuro no bolso, acha-se com direito a destruir aquilo que considera obstáculo obsoleto. Foi isso que justificou a barbárie da guilhotina jacobina ao "grande salto em frente" maoista. Hoje, em tempos que por enquanto são mais serenos, os efeitos são igualmente nefastos, alimentando enorme quantidade de disparates, da política à justiça, dos mercados à educação.

A educação, por exemplo, existe hoje no novo mundo da interconectividade digital, realidade virtual e redes sociais omnipresentes. Mas ninguém diz que debaixo de toda essa parafernália tecnológica está um miúdo igual ao avô e ao bisavô, que precisa de ser amado e orientado. A grande diferença entre ele e os antepassados não é a envolvente informática. Aquilo que se passa no Facebook ou no YouTube é quase igual ao que antes acontecia nos recreios e tabernas. É só menos variado porque antes cada bairro inventava a sua anedota, e na aldeia global todos riem ao mesmo tempo do mesmo post. Aquilo que realmente distingue a geração z das anteriores é que, como os jovens são o futuro, pais e professores, nascidos no século passado, acham ter de se adaptar a eles, desistindo de os educar para não parecerem antiquados.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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