O incómodo dos elefantes

Quanto vale uma bitcoin? Esta é fácil: não vale nada. Trata-se de ficção, delírio, burla. Esta é a resposta directa à pergunta e a mais certa. Só que nas questões económicas a explicação linear costuma ser a mais segura e a menos convincente. Muitos, insatisfeitos com a clareza, suspeitam estar a ser enganados, exigem respostas mais elaboradas, e aí são enganados.

Se quiser a solução complicada, pode dizer-se que uma bitcoin valia 74 cêntimos de dólar a 6 de Abril de 2011, no dia fatídico em que Portugal pediu ajuda à troika. Isso já representava uma valorização incrível, pois a 1 de Janeiro desse mesmo ano a criptomoeda valia 30 cêntimos. Quando, três anos depois, o nosso programa de ajustamento terminou, a 30 de Junho de 2014, a bitcoin já custava 639 dólares. Enquanto escrevo este texto cada uma vale mais de 17 mil dólares e só Deus sabe quanto valerá agora que o está a ler. Pode ser o dobro, metade ou nada. Que é precisamente aquilo que ela sempre valeu, como disse. Que significa tudo isto?

Para compreender a lógica do valor é preciso ir às raízes mais fundas da economia. Mas essa viagem exige perceber algo elementar: a economia baseia-se num punhado de ideias muito simples, que qualquer criança entende, mas poucos sabem aplicar. O problema é que, mesmo ali ao lado, existem outras noções, muito parecidas com as primeiras, que são totalmente falsas. Por isso tanta gente fala de economia sem perceber o que diz. Esta dificuldade é a mesma da famosa canção infantil "se um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais": uma vez explicada, toda a gente a sabe cantar, mas poucos chegam aos dez elefantes sem se enganarem.

Então o que é o valor económico? Os economistas andaram décadas à procura, e só nos finais do século XIX encontraram uma resposta satisfatória. Desde então dizem que o valor das coisas provém do prazer, do interesse, da vantagem, da utilidade que essas coisas têm. Chamam "bens" ao que tem valor em si mesmo, incluindo realidades tão variadas como viagens, beijos, cebolas, canções ou seguros de vida. Para além dos bens, só existe outra realidade com valor económico: os "recursos", entidades que, não satisfazendo directamente necessidades, servem para produzir os bens que as satisfazem, como trabalho, máquinas, adubos, petróleo, etc.

O dinheiro, que não é nem bem nem recurso, não vale nada. De facto, ninguém come moeda, veste moeda, e ela não produz nada útil. Para explicar o valor do dinheiro, a ciência foi obrigada a usar uma lógica diferente. Se a "teoria do valor" se baseia na utilidade, a "teoria da moeda" parte da confiança. O dinheiro só vale porque as pessoas acreditam que ele vale. Toda a gente apenas quer dinheiro porque confia que com ele pode obter coisas úteis.

A confiança, tal como a utilidade, é um fenómeno totalmente subjectivo. Toda a economia é, não física, mas humana, passando-se dentro da nossa cabeça. Mas enquanto a utilidade tem uma base objectiva, pois um bife ou um golo no futebol são realidades concretas, a confiança é uma das substâncias mais fluidas e frágeis do universo. Por outro lado, ela é a base de toda a nossa vida. Existimos e agimos apenas por aquilo em que acreditamos, na família, emprego, comunidade, ideais. Assim não admira que a confiança seja a base da economia. Há muitos séculos que pedaços de papel, que não servem literalmente para nada, são aceites em troca de trabalho duro ou bens preciosos.

Para garantir, tanto quanto possível, essa confiança na moeda, as sociedades dão-se a grandes esforços. Os bancos apresentam fachadas luxuosas, apregoando segurança aos depositantes, enquanto os bancos centrais, responsáveis directos pela moeda, exibem-se como bastiões de respeitabilidade, consistência e estabilidade. Mas isso é sempre mera aparência. A única coisa que realmente garante a moeda é a confiança do público. Uma perda de credibilidade arruína instantaneamente qualquer moeda e qualquer instituição financeira.

Esta realidade tem uma outra face, a facilidade com que as pessoas atribuem confiança a entidades bastante vagas, como a bitcoin. As duas faces são tão inseparáveis como a euforia, que ter- mina sempre em pânico. Quando rebenta a bolha especulativa, muitos lamentam a irracionalidade. Mas essa análise é simplista, como se pode ver hoje na bitcoin, que não passa de uma gigantesca bolha especulativa, desenvolvida sobre a mais diáfanas das realidades, um registo electrónico na nuvem da internet, sem autoridade responsável.

É irracional comprar bitcoins? Quem o fez há sete anos, com cem euros ficou multimilionário, e poupanças aí colocadas foram já multiplicadas mais de 17 vezes, só desde o princípio deste ano de 2017. Irracionais foram os que, com grande esforço e diligência, usaram depósitos, acções ou obrigações com remunerações miseráveis. Comprar bitcoins é excelente... até ao último estúpido que o faça imediatamente antes de rebentar a bolha.

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