Mitos convenientes

Uma razão central do nosso atraso relativo está na má qualidade da classe intelectual. Há séculos que dirigentes e pensadores se deixam levar por fábulas e emoções, normalmente elegantes e convincentes, mas com pouca aderência à realidade. Os tempos rodam, o disparate torna-se evidente, mas então já a geração seguinte de analistas anda intensamente ocupada em criar novos mitos, que alimentam erros subsequentes.

Da epopeia do eldorado ao sonho sebastianista, do iluminismo tacanho ao esquerdismo arrasador, do salazarismo subserviente ao europeísmo ingénuo, os nossos brilhantes doutrinadores sempre andaram alheios à realidade e ao interesse nacionais. Uma mentira muito repetida parece verdade, pelo que multidões estão convencidas de teses falsas, mas dadas como seguras, sem que se cuide de confirmar o fundamento. A partir daí fabricam-se estados de alma e projectos, ódios e execuções, que darão origem a futuros mitos.

Os recentes balanços da carreira política de Cavaco Silva, no termo do mandato presidencial, foram pretexto para uma exposição solene das palermices que têm alimentado as elaborações dos supostos especialistas. Todos sabem, por exemplo, que foi no consulado governamental de Cavaco que a nossa agricultura, pesca e indústria foram desmanteladas a mando de Bruxelas. Todos sabem, mas ninguém se dá ao trabalho de confirmar. Se dessem, descobririam que o produto agrícola não caiu nesses anos, antes subiu 20% acumulados, as pescas 18%, a indústria 57%.

De onde é que vem então o mito? Nesse período o emprego caiu 20% na agricultura, 25% nas pescas e 4% na indústria transformadora. Isto chama-se aumento de produtividade, precisamente aquilo que a elite tanto anseia, mas não sabe o que implica. Nesse período o emprego nos serviços aumentava 30%, absorvendo os trabalhadores dispensados. O que aconteceu então em Portugal foi o desenvolvimento da economia, que se modernizou, crescendo o peso dos serviços. Portugal em 1985 tinha aí 41% do emprego; hoje tem 66%. Mas a Alemanha tem 74%, a Espanha 78%, a média dos quinze 77% e até a Itália, a menor deles, 73%. O nosso atraso não se deve ao excesso de serviços mas à falta deles; não temos omissão de indústria mas exagero.

Outra certeza do imaginário nacional é o sucesso cavaquista se dever exclusivamente aos fundos estruturais. Curiosamente, nenhum dos sucessores é acusado desse vício, como se Guterres, Barroso, Sócrates e Passos não os tivessem recebido. Mas, mais uma vez, ninguém foi ver. O total acumulado de dinheiro obtido desde a entrada na CEE, em 1986, até 1995 (líquido do que pagámos) representou uns impressionantes 21% do PIB. Mas nesses anos o produto português aumentou 56% acumulados, o que mostra que as empresas (não o primeiro-ministro) tiveram na nossa evolução um papel muito maior do que os fundos. Mais interessante é notar que nos dez anos seguintes, de 1996 a 2005, Portugal voltou a receber os mesmos 21% do PIB, mas o crescimento foi só de 29%.

Outra certeza indiscutível é que a nossa desgraça vem da entrada no euro, de que Cavaco Silva é o único responsável (embora tenhamos entrado mais de três anos depois de ele sair do poder). Tem graça que as nossas luminárias nunca digam que alternativa defendem. Deveríamos ter recusado a adesão à moeda europeia, ficando desligados do mercado único? E qual é a tal vantagem excelente de não ter o euro? Seria bom que o Estado continuasse a roubar-nos regulamente, desvalorizando o dinheiro que temos no bolso para beneficiar empresas exportadoras ineficientes? Querem eles que os trabalhadores e consumidores sejam habitualmente enganados, com salários mais baixos e preços mais altos, mascarados por moeda fraca? A desvalorização interessa muito a certos grupos de pressão, que influenciam os opinadores, mas não à população nacional, que bem sofreu nos anos da sua vigência.

Todos estes mitos, por mirabolantes que sejam, escondem o grande embuste que durante vinte anos constituiu a base da política nacional: o mito dos direitos inalienáveis que alguns grupos foram gozando, muito acima do que a produção nacional podia pagar. Funcionários, pensionistas, escolas, hospitais, banca, construtoras, municípios e tantos outros ganharam muito graças ao crescente endividamento público e privado, que a entrada no processo de unificação monetária permitiu, e que rebentou em 2008. A urgência vital da intelectualidade nestes anos tem sido justificar e recuperar esses ganhos o mais possível. A finalidade dos mitos é, portanto, esconder este golpe.

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Era muito arrogante, mas era verdade, e como era verdade e era arrogante eu não me cansava de o dizer, quando na minha vida a arrogância e a verdade tinham um peso maior do que hoje. E o que era verdade é que já tinha ido mais vezes a Paris do que a Cascais e o que era arrogante era dizê-lo em todo o lado, junto de quem quer que fosse, mesmo quem nunca tivesse ido a Paris, ou a Cascais, e quisesse. Tenho vindo aqui mais vezes nos últimos tempos descobrir novos nomes, novas terras, pôr caras nas terras, de Bicesse, que em criança achava ser em Angola, a Pau Gordo, que não sabia que existia.

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Há muitos anos, recebi um original de ficção de uma autora estreante que pedia uma opinião absolutamente sincera sobre a sua obra. Designar por "obra" o que ainda não devia passar de um rascunho fez-me logo pensar em ego inflamado. Por isso decidi que, se a resposta fosse negativa, não entraria em detalhes, sob o risco de o castelo de cartas cair com demasiado estrondo. Comecei pela sinopse; mas, além de só prometer banalidades, tinha uma repetição escusada, uma imagem de gosto duvidoso, um parêntese que abria e não fechava e até um erro ortográfico que, mesmo com boa vontade, não podia ser gralha. O romance propriamente dito não era melhor, e recusei-o invocando a estrutura confusa, o final previsível, inconsistências várias e um certo desconhecimento da gramática.