Poder no vácuo

Globalização é um chavão enganador. O mundo é global, mas nós continuamos locais. Muitos seguem obsessivamente as eleições americanas ou os conflitos no Médio Oriente sem ligar aos disparates do seu administrador do prédio ou da câmara municipal. Apesar disso, quando a América elege como presidente uma pessoa, no mínimo, peculiar, devemos prestar atenção. O planeta não se pode dar ao luxo de desconhecer Donald Trump.

Assim, o livro Fire and fury. Inside the Trump White House de Michael Wolff (Little, Brown, Janeiro 2018) merece atenção. Assumidamente vasta mexeriquice, furiosamente repudiada pelo biografado, não foi seriamente refutada e a generalidade dos críticos respeitáveis considera-a credível e informativa.

O tema central é um fenómeno normal nas presidências, o confronto inicial entre grupos, procurando predominância junto do líder. Neste caso os protagonistas são a facção do casal Ivanka Trump-Jared Kushner, filha e genro do presidente, e os seguidores de Steve Bannon, alegado estratega da candidatura. Nesse sentido, o livro já está obsoleto, terminando com a vitória do primeiro e expulsão do segundo. Se este elemento palaciano é normal e comum a todas as administrações, embora raramente grotesco, o interesse da obra está nos outros aspectos excêntricos, que inevitavelmente influenciam o nosso futuro.

O primeiro é Trump e os seus próximos não terem, de todo, planeado ganhar. A candidatura não passava de uma elaborada campanha de promoção pessoal, sem perspectivas de governação: "Trump seria o homem mais famoso do mundo - um mártir da aldrabona (crooked) Hillary Clinton" (p. 18). É verdade que, logo que ganhou, numa cambalhota cínica, assumiu com naturalidade a nova condição, mas era evidente que não estava previsto. A surpresa do mundo foi inferior à dele e dos seus.

Daqui sai uma consequência importante: a enorme fragilidade da administração. No mundo cão da política norte-americana, só é presidente quem estiver bem seguro. As enormes debilidades pessoais, financeiras e políticas do seu passado, que nunca seriam um problema se perdesse, são hoje outras tantas oportunidades de chantagem. Com tantos escândalos potenciais, ele só não foi já derrubado porque aos verdadeiros poderosos ainda interessa a manutenção.

O segundo elemento vem das características pessoais de quem, nominalmente, tem o maior poder do mundo. Incapaz de concentrar a atenção, "Trump não lê. Nem sequer relanceia. Se está impresso é como se não existisse (...) Não só não lê, também não ouve; prefere ser a pessoa que fala" (113-114); "Trump, o homem de negócios, nem sequer sabe ler um balanço, e Trump, que fez campanha baseada nas suas capacidades de negociador, com a sua inatenção a detalhes, é um horrível negociador" (22). "Trump é impetuoso e, no entanto, não gosta de tomar decisões, pelo menos aquelas que o forçam a analisar um problema" (263). A consequência só pode ser que a esmagadora maioria das opções políticas da administração simplesmente nada têm que ver com Donald Trump. Por isso tantas avaliações do primeiro ano encontraram, sobretudo, um "vácuo de poder" (306). O país é dirigido pela máquina do Estado e Partido Republicano.

Apesar disso, ele considera-se detentor da verdade por instinto, desprezando especialistas: "Tudo o que sabe parece ter aprendido na hora anterior" (22). Narcisista compulsivo, "com uma constante necessidade de ganhar alguma coisa; qualquer coisa" (303), a sua eleição reforçou a certeza de que o sucesso se atinge pela sua via abstrusa, violando todas as regras estabelecidas. Estes primeiros meses têm sido uma sequência de erros monstruosos e hilariantes, confirmando plenamente o traço, que se vai acentuando.

A alegada ideologia Trump, a "doutrina Trump" que tantos procuram, simplesmente não existe. O já falecido presidente da Fox News e seu amigo "[Roger] Ailes estava convencido de que Trump não tem convicções políticas, nem espinha" (3). Para lá de alguns instintos nacionalistas, chauvinistas e protecionistas, ele é, acima de tudo, um oportunista, defendendo o que lhe parece ser útil no momento. A sua política externa, que choca tanta gente, é afinal mera "Kissingeresque realpolitik" (226), através dos conselhos que o apoderado Kushner tem pedido aos 94 anos de Henry Kissinger. Daqui sai outra conclusão: os maiores inimigos de Trump serão os seus partidários (como já Bannon), à medida que virem os adorados princípios sacrificados na voragem delirante de uma presidência sem programa. Pelo contrário, a maior ajuda vem-lhe dos furiosos ataques, que lhe servem de álibi para a inoperância.

Finalmente há o "procurador especial" Mueller. A paralisia que Nixon sofreu durante dois anos no segundo mandato, por truques eleitorais, assombra Trump desde os primeiros meses, e a acusação é alta traição com potência estrangeira. No meio de tudo isto, a única coisa que interessa, a governação do país, simplesmente desaparece.

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