Apanhados de surpresa

É espantoso que as elites nacionais andem alheias ao essencial da situação económico-financeira. Assim, elas ficarão tão surpreendidas com a próxima crise como ficaram com a anterior. Por inacreditável que pareça, o país repete um mesmo erro em menos de dez anos. Pela segunda vez numa geração, a sociedade portuguesa será apanhada de surpresa por uma derrocada devastadora, que está latente há muito tempo, sem que ninguém dê por ela. É hoje evidente que, apesar dos terríveis sofrimentos da crise passada, os portugueses não aprenderam as lições de 2008.

O desastre económico que, nas praias lusitanas, deflagrou a seguir à derrocada do subprime norte-americano estava em preparação há mais de 15 anos. O endividamento galopante que, à volta da viragem do milénio, se viveu em todo o Ocidente teve em Portugal uma das suas apoteoses, que vinha muito de trás. A entrada no caminho para o euro, com o Tratado de Maastricht de Fevereiro de 1992, significara uma enorme descida das taxas de juro para um país habituado a crédito caro. A década e meia seguinte foi de embriaguez de crédito, no sector público como no privado. As atenções costumam centrar-se nas auto-estradas da época, mas todo o estilo de vida dos portugueses foi afectado por esses tempos de facilidade. Gastava-se a nível europeu com produtividade portuguesa. O resultado inevitável foi o colapso, que adiámos até 2011, e a dívida esmagadora, que nos assombrará durante décadas.

Apesar de ser um processo longo e patente, as elites na altura foram apanhadas totalmente de surpresa. Não tinham reparado na acumulação dos défices público e externo. Como a Europa era benevolente com o primeiro e o euro financiava o segundo, as luminárias locais convenceram-se de que contas certas era mania de germânicos e nórdicos, ficando mal a intelectuais latinos de pendor social. Por isso, a consciência política nacional andou totalmente alheada da bomba-relógio financeira que, quando rebentou, como tinha de rebentar, os espantou completamente.

Claro que, apanhados a dormir na forma, nunca admitiram a falha. Preferiram congeminar uma explicação que não só justificava a devastação mas escondia a sua incapacidade de a prever. Admitindo alguns excessos pontuais atribuídos à governação de José Sócrates e a Ricardo Salgado, oferecidos em holocausto, os analistas nacionais asseguraram vigorosamente que o trem de vida anterior era perfeitamente razoável e legítimo, e nada tinha que ver com a crise. Afinal, esses gastos eram direitos inalienáveis de cidadãos europeus no século XXI, sem interessar a forma de os pagar. Assim, o terrível sofrimento da recessão de 2011 a 2013 ficou à conta da troika e Passos Coelho, fundamentalistas neoliberais, sem haver nada a corrigir na estrutura nacional. Em consequência, a prioridade política suprema, assim que a economia começou a crescer graças à expansão mundial, tem sido repor a situação que vivíamos antes da crise. Precisamente aquela que nos conduziu à crise e que nos levará à seguinte. Ninguém parece notar a incongruência do propósito.

Se o problema fosse só repetir os erros, era o menos. Mas existe uma diferença decisiva entre a cegueira económica actual e a anterior, que é o mais assustador. Desta vez, devido ao tropeço de 2011, o endividamento externo encontra-se encerrado. É verdade que, como toxicodependentes, as elites celebram entusiasticamente as tímidas aberturas no acesso ao crédito externo, como se empilhar ainda mais dívida fosse boa ideia. No entanto, não será por aí que se conseguem repor os níveis de consumo ruinosos a que nos habituámos. Por isso, desde o encerramento dos mercados em 2009, o meio que tem alimentado a vida nacional, no Estado, empresas e famílias, é o consumo de capital. Portugal vive há dez anos a vender as pratas da casa.

Entregando as grandes companhias nacionais e até casas e terrenos a capitais estrangeiros para financiar consumo, a taxa de poupança das famílias está em mínimos históricos. O investimento público tem sido a rubrica mais cortada, para sustentar as despesas correntes, e as famosas cativações dirigem-se sobretudo aos gastos de funcionamento, degradando serviços. Nas empresas, o investimento e o crédito bancário atingiram mínimos históricos. As tímidas recuperações recentes nada alteram de significativo, pelo que, desde 2013, o investimento se mantém abaixo dos valores de reposição de equipamento. Como a produtividade e a competitividade não param de se degradar, o país encontra-se, realmente, numa lenta decadência, que até é demográfica, pela baixa fertilidade e emigração.

Entretanto, vê-se por todo o lado as pessoas a voltar aos hábitos de vida que tinham antes da crise, perante a bonomia pateta do governo, que se orgulha de baixar impostos, subir salários e pensões, apregoando isto como virtuosismo do senhor ministro das Finanças. Como em 2008, as elites andam satisfeitas, caminhando alegremente para o segundo abismo financeiro da década, no qual, mais uma vez, cairão totalmente de surpresa.

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