Ainda só se vive uma vez

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Cada um de nós tem apenas uma vida, que nos foi entregue um dia, é nossa durante um tempo, e um dia teremos de entregar. Há só uma vida. Este facto, evidente para todos desde sempre, precisa hoje de ser lembrado. Uma das patologias do nosso tempo, na origem de grande parte dos males presentes, é a convicção de que podemos ter várias vidas, que conseguimos trocar de personalidade, que é possível escolher existências diferentes. Quando o Parlamento se prepara para discutir uma lei da mudança de sexo, fica óbvia a oportunidade do aviso.

A ambição de mudar é um traço da humanidade que todas as épocas sentiram. Uma boa novela ou encenação, como o turismo e a migração, tem o condão de nos levar para um mundo alternativo, passando um momento numa vida diferente. Cultos e doutrinas de todos os tipos pregam a conversão, orientando a vida noutra direcção, e falam de vida após a morte. Mas o actual humanismo arrogante, apoiado em avanços técnicos e dinâmicas sociais, leva esses processos a um paroxismo artificial e aberrante. A ânsia contemporânea é de existências paralelas e contraditórias, gerando vidas fragmentadas, desintegradas, vazias.

O fenómeno surge esmagador em alguns jogos, os role-playing games (RPG), cuja finalidade é encarnar personagens. A ideia começou em tabuleiro mas ganhou realismo e sedução nos videojogos, passando de divertimento a vício. Muitos vivem, realmente, a esquizofrenia de duas vidas, uma na realidade e outra online, com todas as doentias consequências emocionais e psicológicas.

A maior parte destes jogos são fantasistas, mas surgiram também plataformas que reproduzem um ambiente normal, permitindo viver uma realista vida alternativa. Um dos sucessos originais, criado em 2003 pelo Linden Lab de São Francisco, Califórnia, chama-se mesmo Second Life (segunda vida). Aí, em vez de se personificar um ogre mágico percorrendo florestas e masmorras montado numa avestruz, incarna-se uma pessoa comum numa vida vulgar, mas diferente. Cada um pode reinventar-se à vontade, criando características físicas, históricas e psicológicas, vivendo uma vida alternativa.

Estes dois patamares iniciais têm a infecção ainda benigna, porque a pessoa sabe que vive uma ficção. A questão muda de figura quando a ilusão entra no mundo real. Muita gente, através de blogues e afins, habita realmente duas vidas paralelas, uma debaixo do sol, outra dentro do computador. No anonimato da internet, é possível fingir ser-se aquilo que sempre se quis ser mas realmente nunca se foi. Aí dá-se rédea livre a ânsias, raivas, poderes, manias e perversões que jamais surgiriam na rua. Basta ler comentários e posts, hoje omnipresentes do YouTube a artigos de jornal como este, para perceber que aquelas pessoas nunca atingiriam tal grau de grosseria, presunção e violência se estivessem face a face ou mesmo escrevendo uma carta. Escondidos atrás do pseudónimo, ou com o nome verdadeiro irreconhecível na multidão, são outra pessoa.

Embora o mundo virtual seja o paraíso da esquizofrenia de vidas alternativas, ela já domina a realidade quotidiana. A precariedade laboral, com empregos temporários e variados, obriga os jovens a saltitar de vida para vida, sem nunca se definirem. A própria universidade, com propostas como o processo de Bolonha ou o programa Erasmus, encoraja esta diversidade, permitindo ser-se várias coisas diferentes durante a formação. Não admira que muitos nunca cheguem a ser coisa nenhuma, mantendo-se adolescentes até à reforma.

A família é o âmbito em que esta tendência para mudar de vida é mais evidente. E terrível. A explosão de divórcios, uniões de facto ou promiscuidade institucionalizada manifesta a obsessão de ir escolhendo vidas diferentes. Quando amamos caricaturas à distância, perdemos as pessoas reais. Isso explica também a queda da natalidade. Nada demonstra com mais clareza a unicidade da vida que uma criança e, sobretudo, um bebé. Na infância somos o que somos, com todo o potencial de futuro, mas também com toda a particularidade inultrapassável do concreto. Ter um filho prende-nos à vida; àquela vida a que estamos, sempre e irredutivelmente, presos, porque somos só aquilo que somos. É precisamente essa verdade incontornável que o mundo hoje pretende negar, apresentando-a como uma prisão opressiva de que nos diz libertar, convencendo-nos que podemos ser aquilo que não somos.

Este aspecto aponta para o centro nevrálgico do fenómeno: o humanismo arrogante. O elemento decisivo desta ilusão é o impulso da autodeterminação, a embriaguez do divino poder absoluto, desenhando a gosto a sua própria entidade. Este tempo, que se diz ecológico e defensor do ambiente, é aquele que mais agride a natureza no ser humano. Da ideologia de género aos videojogos RPG e ao adultério, a linha comum é a recusa da verdade daquilo que se é, a soberba de se reinventar a seu bel-prazer. Mas a rejeição da vida que existe leva inevitavelmente à morte.

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