Três casamentos e uma união de facto

"Tenho vontade de encher a tua boca de porrada, tá?, seu safado." O autor desta frase não foi o criminoso André do Rap, traficante internacional de drogas mais procurado do Brasil, mas Jair Bolsonaro, presidente da República eleito com a cumplicidade de 57 milhões de eleitores faz no dia 28 dois anos.

É dele também este poema: "Ó rapaz pergunta para a tua mãe o comprovante que ela deu para o teu pai, tá certo? (...) Fica quieto! Você tem nota fiscal desse relógio que está contigo no teu braço? Não tem! Não tem. Você tem nota fiscal do teu sapato? Não tem, porra!"

No segundo caso, de dezembro de 2019, Bolsonaro reagia, ainda só irritado, a perguntas sobre um cheque depositado na conta da primeira-dama Michelle por Fabrício Queiroz, o operacional preso (escondidinho no escritório do advogado do presidente) por envolvimento numa teia de corrupção com epicentro no senador Flávio Bolsonaro.

No primeiro, de há poucos meses, insurgia-se, já desesperado, contra a revelação de que a sua terceira mulher, afinal, recebera mais de 20 depósitos de Queiroz e de Márcia Aguiar, casada com o operacional.

Segundo os investigadores, o casal Queiroz e Aguiar, amigos de 30 anos do presidente, recebeu 6,2 milhões de reais nas suas contas entre 2007 e 2018, dos quais apenas 1,6 milhão seriam salários como polícia e como membro do gabinete de Flávio - os restantes 4,6 milhões, suspeitam, era dinheiro público desviado dos salários de assessores-fantasmas.

Ana Cristina Valle, a ex-mulher de Bolsonaro, não era proprietária de nenhum imóvel antes do casamento com o hoje presidente. Durante o matrimónio, de 1997 a 2008, adquiriu 14, dos quais cinco comprados em dinheiro vivo, segundo reportagem da revista Época. Nem com muita sorte aos dados no Monopólio...

Cristina é, entretanto, investigada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por suspeita de atuação como funcionária-fantasma do gabinete do vereador Carlos Bolsonaro, segundo filho do presidente, entre 2001 e 2008. Além dela, outros membros da família Valle estão na mira das autoridades por "assessorarem" os Bolsonaro - e, claro, transferirem a quase totalidade dos salários para Queiroz, que depois redistribuía o saque.

A primeira ex-mulher do presidente, entretanto, é Rogéria Nantes. A mãe dos citados Flávio e Carlos, e ainda do deputado e ex-futuro embaixador nos EUA Eduardo Bolsonaro, pagou, em 1992, 95 mil reais, em dinheiro e a pronto, por um apartamento no Rio enquanto ainda era casada com o atual chefe do executivo.

Nos seus dois mandatos como vereadora na cidade teve 66 assessores e, assim como o ex-marido e os filhos, também empregou parentes seus ou pessoas com graus de parentesco entre si que viriam a desempenhar as mesmas funções nos gabinetes do ex-marido e dos seus filhos, num estranho círculo vicioso - e viciado.

Por falar em família, Rogéria tem uma irmã, Rosemeire, que tem um filho, Léo, primo direito de Flávio, Carlos e Eduardo. Léo Índio, como é conhecido, foi notícia há um ano no jornal O Estado de S. Paulo por andar a caçar comunistas na função pública. Além disso, é uma espécie de convidado especial do "Gabinete do Ódio", o escritório anexo ao do próprio presidente liderado por Carlos, cujo fim é arrasar reputações de dissidentes do regime.

Oficialmente, no entanto, o emprego de índio é de assessor do senador Chico Rodrigues. O nome deve soar familiar: sim, é aquele aliado do Governo apanhado pela polícia com uns milhares de reais nas nádegas destinados a combater uma "gripezinha" que anda por aí.

Sobre o inefável senador, Bolsonaro, antes de ensaiar uma tentativa de negar três vezes que o conhecesse, disse em vídeo que, depois de 20 anos de tanta intimidade no Congresso, tinha com ele "quase uma união estável [união de facto, em Portugal]".

Michelle Bolsonaro recebeu 20 depósitos de um detido; a "ex" Cristina adquiriu 14 imóveis durante o casamento; a "ex" Rogéria comprou apartamentos em dinheiro vivo; e o cônjuge, de facto, Chico transporta dinheiro no traseiro.

Há um padrão. E um denominador comum: Jair.

Correspondente em São Paulo

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