Thriller Brasil

Na série de suspense thriller em que se transformou o Brasil de 2018, na terça-feira da semana passada os brasileiros foram dormir após os autocarros da caravana do pré-candidato às eleições de outubro Lula da Silva serem atingidos por tiros no Paraná. "Atentado político!", bradou o Partido dos Trabalhadores (PT). "Emboscada!", classificou a presidente do partido. "Ataque de grupo de fascistas!", decretou o próprio Lula. Noutra cena, mais ou menos à mesma hora, mas em Brasília, o juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) a quem foi atribuído o processo que pode levar o antigo presidente da República à prisão revelou que ele e a família foram ameaçados de morte. A presidente do tribunal solicitou imediatamente escolta policial ao magistrado.

Na véspera, a série da vida real tivera como pano de fundo uma série de ficção: a ex-presidente da República Dilma Rousseff acusara o realizador José Padilha, responsável pelos sucessos de bilheteira Tropa de Elite 1 e 2 ou Narcos e agora da série da Netflix O Mecanismo, inspirada na Operação Lava-Jato, de produzir notícias falsas; e Padilha respondera chamando Dilma de analfabeta. Em causa frases infames ditas na vida real por colaboradores próximos de Michel Temer atribuídas na ficção à personagem que representa Lula. "A ideia é misturá-los mesmo porque, uma vez no poder, todos os partidos são farinha do mesmo mecanismo", reagiram os fãs da série. "Padilha mistura alhos com bugalhos e trigo com joio para confundir", acusaram os que cancelaram assinaturas da Netflix em massa por causa do assunto.

O acirramento das claques nota-se também na análise aos meios de comunicação: a direita conservadora acusa a Globo de obscenidades porque a ficção do canal é simpática a causas LGBT e outras; a esquerda censura o conservadorismo de direita do seu jornalismo. O Folha de S. Paulo, maior jornal do país, sofre por ser plural: a esquerda recusa-se a lê-lo e chama-lhe Falha de S. Paulo, enquanto adeptos do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro, ouvidos pelo próprio jornal, apelidam-na de Foice de S. Paulo.

Nas semanas anteriores, o episódio do thriller, trágico, fora protagonizado pela defensora dos direitos humanos Marielle Franco, executada no centro do Rio de Janeiro, cidade a atravessar guerra civil entre o exército do estado, que mata, o dos traficantes, que mata mais, e o das milícias populares, que mata mais ainda. E Marielle, por ser carioca, fotogénica e talentosa, foi apenas a ponta de um icebergue de centenas de políticos e ativistas mortos nos últimos anos no Brasil profundo.

O STF, o tal cenário onde um juiz sofre ameaças de morte, também é núcleo dramático de peso no suspense thriller brasileiro: um magistrado chamou outro de "representação do mal e do atraso com pitadas de psicopatia" ao vivo e a cores. O Planalto faz a sua pontinha na série: Michel Temer, presidente da República, Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, e Henrique Meirelles, ministro das Finanças, embora sejam todos sócios no atual governo, prometem guerra suja de bastidores até às eleições de outubro - porque os três, muito ciosos do 1% de cada nas sondagens, nem cogitam unir-se.

Do candidato de esquerda Ciro Gomes raramente vem bom senso: depois de ter perdido montanhas de votos em 1998 ao atribuir como única função de campanha da sua mulher da época, a atriz Patrícia Pillar, a de dormir com ele, 20 anos depois voltou a deixar feministas em ebulição ao dizer à rival Marina Silva que "o Brasil de hoje precisa de testosterona". Até Geraldo Alckmin, considerado o mais sem sal de todos os candidatos, entrou no salgado clima de thriller: confrontado com o tal ataque a tiro à caravana de Lula, disse que cada um colhe o que planta.

E como hoje Lula pode ser condenado à prisão no STF e ainda faltam penosos seis meses para as eleições, os últimos episódios desta série arriscam-se a passar de thrillerzinho para western spaghetti, com influências de kung-fu e manga, à Tarantino, em que o sangue, a correr às toneladas pela tela, se torna personagem em si mesmo.

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