Talvez depois do Carnaval

No Brasil, diz-se que o ano só começa depois do Carnaval porque o período entre o réveillon e a maior festa nacional coincide com as férias de verão escolares, judiciais, parlamentares, etc.

E, na verdade, no Brasil, nada de novo, até agora, em 2020.

No Palácio da Alvorada, o presidente da República Jair Bolsonaro definiu, dia 4, mudanças nos livros didáticos "por terem muita coisa escrita!", embora lhes queira acrescentar os 1356 carateres do hino nacional na contracapa.

No dia 7, ao ler na imprensa que usou recursos públicos do fundo eleitoral que hoje em dia ataca para financiar a sua campanha de 2018, afirmou que "jornalistas são uma raça em extinção".

Pelo meio, a propósito do atentado de Donald Trump que resultou na morte do general iraniano Suleimani, acusou o falecido de não ser general, embora todo o mundo, incluindo o seu ministério das relações exteriores, o trate dessa forma.

E ainda decidiu manter um subsídio dado a grandes empresas, como bancos e outros gigantes, que usem energia solar - um subsídio com custo de cerca de sete milhões de euros até 2035 ao bolso do consumidor comum.

Finalmente, já falou três vezes da guerra não assumida com o ex-juiz Sergio Moro, desencadeada pelas sondagens de meados de dezembro que dão o segundo com índices de popularidade muito superiores aos do primeiro.

Noticia-se até que os militares do governo trabalham pela candidatura presidencial do ministro da justiça e da segurança nacional em 2022. E que o presidente da República projeta encostar Moro à parede, convidando-o para o seu novo partido, o Aliança - caso o ministro recuse, será o sinal de que em 2022 tenciona mesmo candidatar-se independentemente da vontade do chefe.

Bolsonaro a atacar as letras, sejam as dos livros didáticos, sejam as dos jornais, a reagir como um cão de Pavlov aos movimentos de Trump, a escolher políticas que beneficiam os milionários em detrimento dos mais pobres e a perder tempo a disputar território com o seu suposto amigo Moro para 2022 - como dissemos, em 2020, nada de novo.

A não ser a perturbadora reportagem do jornal Folha de São Paulo, publicada dia 5, sobre assassinatos de meninas dos 10 aos 19 anos no Ceará. De 2016 para 2018, o aumento nesse segmento foi de 322%.

A tragédia - na contramão da diminuição do número de assassinatos de jovens do sexo masculino em igual período - é resultado da guerra entre organizações criminosas da região: as duas gigantes nacionais, o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, e o Primeiro Comando da Capital, de São Paulo, mais a local Guardiões do Estado.

As mortes são decretadas em perfis anónimos da rede social Facebook e os cadáveres expostos, na maior parte das vezes com os seios amputados e outras marcas de tortura, como escalpelamento e violação, na internet.

Porque elas são condenadas à morte? Por namorarem ou terem amizade com membros de uma organização rival, por exemplo; ou por suspeita de serem "cabuetas" (delatoras, no calão cearense); ou por se recusarem a transportar uma informação; ou por resistirem a entrar nas organizações; ou, simplesmente, por uma resposta atrevida a um traficante no local e na hora erradas. E como a vida de uma mulher é considerada menos valiosa do que a de um homem na cultura machista e feminicida do mundo do tráfico, os motivos podem ser ainda mais fúteis: uma das vítimas morreu por pintar o cabelo de encarnado - a cor do Comando Vermelho.

O governo do Ceará, a cargo de Camilo Santana, do PT, argumenta que trabalha incessantemente para reduzir crimes violentos letais e apresenta estatísticas com a queda de homicídios no estado na ordem dos 20% naquele período. Mas especialistas acusam-no de investir em helicópteros, drones e outras ações ostensivas e não no combate às causas da tragédia.

Entretanto, ocupadíssimo a atacar as letras, a bajular Trump e as eleições de daqui a dois anos, o presidente da República não disse uma palavra. E o ministro da tutela, Moro, também não. Talvez depois do Carnaval.

São Paulo

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