Sérgio Frankenstein Moro

De quem é a culpa?

De quem é a culpa de o Brasil ter eleito o presidente mais incapaz da história, que em nome de uma agenda fascistóide e alucinada ataca os outros poderes - Congresso e Supremo - os outros executivos - governadores de estado e prefeitos municipais - o seu próprio governo - demitindo dois ministros defensores do isolamento e contrários a remédios sem comprovação - o seu partido - do qual saiu para formar outro mais radical - a ciência, a cultura, as relações internacionais, a educação, a saúde, os índios, a floresta, a inteligência?

De quem é, afinal, a culpa por um dos deputados mais preguiçosos e reacionários em 30 anos de parlamento ter sido eleito presidente da República?

"O PT", respondem alguns, "gestou Bolsonaro".

Essa teoria, porém, tem um conflito grave com a lógica: foram, portanto, os 47 milhões que votaram Fernando Haddad, e não os 57 milhões que escolheram o atual presidente, os responsáveis pela eleição de um fascistóide alucinado?

"O PSDB", respondem outros, "semeou Bolsonaro".

Némesis do PT ao longo de décadas, competiria ao partido de Fernando Henrique Cardoso capitalizar para si a aversão ao partido de Lula da Silva e Dilma Rousseff. Mas Aécio Neves, que encarnava o voto "contra a corrupção" em 2014, era em 2018 o rosto da vigarice. E o PSDB caiu de 50 para cinco milhões de eleitores em quatro anos. A maior parte dos 45 milhões dessa equação optou pelo deputado preguiçoso e reacionário, para desilusão, e não alegria, do PSDB.

"Toda a classe política", respondem mais uns quantos, "pariu Bolsonaro".

Talvez esses tenham razão: como além do PT e do PSDB mais 33 partidos foram atingidos pela Operação Lava-Jato, a ideia que presidiu ao sufrágio de há dois anos foi votar no "novo", no "fora da política", num "justiceiro populista".

Ou seja, se alguém tem responsabilidades na conceção do lamentável "fenómeno Bolsonaro" é a Lava-Jato, colossal operação, com méritos mas também parcialidade e abusos, contra a corrupção estrutural sócio-político-económica do Brasil.

A prova? O PT e o PSDB, os outros suspeitos, estão na oposição; o mentor da operação, Sérgio Moro, juntou-se ao governo. E semanas antes soltara informações para a imprensa sobre uma delação inócua de Antonio Palocci, para tentar prejudicar Haddad; e meses antes prendera Lula, o favorito das sondagens.

Como Victor Frankenstein, o juiz de Curitiba teve a ambição de ficar famoso. Como o químico suíço, achou que podia dar vida a uma criatura monstruosa sem ónus. Como a personagem de Mary Shelley, acreditou que brincar com a natureza não traria consequências. Como o doutor fictício, o doutor real também fracassou.

Por ironia do destino de um país onde karma e política se confundem, não foi Lula, o maior inimigo da Lava-Jato, quem apagou a operação. Nem Aécio Neves, que de paladino da moralidade passou a corrupto contumaz graças a ela. Nem sequer os velhos caciques de Brasília - como aquele aliado de Michel Temer que um dia disse "temos de estancar a sangria da Lava Jato".

Foi Bolsonaro, a criatura, que destruiu a Lava-Jato, a sua criadora.

O procurador-geral Augusto Aras, um fidelíssimo do presidente, disse por estes dias que "é hora de corrigir os rumos para que o lavajatismo não perdure".

E, depois de sucessivos ataques à condução da operação, o procurador Deltan Dallagnol, face da Lava-Jato em Curitiba lado a lado com Moro, demitiu-se.

Sete procuradores da operação em São Paulo assinaram demissão coletiva alegando "incompatibilidades insolúveis" com a sua chefe local.

O próprio Moro é hoje muito mais perseguido nas redes sociais pelo exército de aldrabões liderado por Carlos Bolsonaro do que por fãs de Lula.

"A Lava-Jato, infelizmente, tem sofrido reveses. A continuidade e as condições de trabalho das task forces do ministério público estão ameaçadas", lamentou-se Sérgio Moro em entrevista da semana passada ao jornal Correio Braziliense.

No "Frankenstein", o último suspiro de Victor Frankenstein também é em forma de lamento.

Correspondente em São Paulo

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