Por que não o Cabo Daciolo?

Em 2018, cerca de metade dos eleitores brasileiros queria tudo menos eleger um presidente do Partido dos Trabalhadores (PT).

Nada a apontar.

Depois de 13 anos, nenhum governo em nenhum canto do mundo se mantém no auge da popularidade - nem mesmo o PRI mexicano, no poder por 71 anos no século XX. Grave seria, para a saúde da democracia, se se mantivesse.

Por um lado, o PT soube colocar 40 milhões de miseráveis na sociedade de consumo, retirar o Brasil do mapa da fome e democratizar como nunca antes na história de um dos mais desiguais países do planeta os acessos à saúde e à educação - daí dispor ainda, naquele 2018 e neste 2020, da admiração de tão larga fatia da população do interior mais remoto e das periferias mais carentes das grandes cidades, além de forte prestígio internacional.

E, de passagem, ainda fez ainda muitos milionários tornarem-se multimilionários.

Não agradou, no entanto, a boa parte da classe média que viu esses milionários se afastarem e aqueles miseráveis se aproximarem. Enquanto os riquíssimos compravam segundo helicóptero e os ex-pobres viajavam pela primeira vez de avião, essa classe média sentiu-se desatendida na era das vacas gordas de Lula da Silva - desatendida e revoltada.

Mostrou essa revolta, primeiro, a propósito da construção de estádios caríssimos e ociosos para sediar a Taça das Confederações de 2013 e o Mundial de 2014 naquilo que ficou conhecido como "Jornadas de Junho".

E, depois, na sequência dos desvios gigantescos em nome de uma suposta governabilidade, alcunhados de Petrolão, dos quais o PT, na melhor das hipóteses, foi cúmplice.

Com uma crise económica, por altura do segundo mandato de Dilma Rousseff, por cenário, essa revolta concretizou-se finalmente na forma de impeachment. O sonho dos manifestantes "contra a corrupção" da Avenida Paulista e de Copacabana era tornado realidade nos gabinetes de Brasília, ironicamente, por corruptos do quilate de um Eduardo Cunha ou de um Michel Temer.

"Porque vale tudo menos o PT", dizia-se.

Nada a obstar, repitamos.

Mas havia tanta alternativa melhor...

Se a ideia era escolher um cristão, devoto, porque não Geraldo Alckmin, membro da Opus Dei, conservador nos costumes até ao tutano, e ainda um eficiente e bem avaliado governador do estado de São Paulo em três mandatos?

Se, por outro lado, se ambicionava reduzir o estado ao mínimo porque não João Amoêdo, um anti-keynesiano fanático mas com educação e louco para participar nos debates (e não para fugir deles)?

Se a austeridade orçamental e a aprovação de reformas estruturais no âmbito previdenciário, tributário e administrativo eram a prioridade, porque não Henrique Meirelles, experiente economista?

Se, pelo contrário, a ideia era testar alguém jamais testado, por que não Marina Silva, pessoa de passado ilibado, reconhecimento no estrangeiro e - bónus - fé evangélica?

Se o temperamento de Marina, no entanto, poderia ser considerado suave demais para os desafios do Brasil atual, por que não Ciro Gomes, o impulsivo, às vezes furioso, mas bem preparado "cabra macho" do Nordeste?

A não ser que fosse mesmo necessário alguém completamente confuso, que não articulasse coisa com coisa, um parlamentar improdutivo, adepto de teorias da conspiração, capaz do populismo mais rasteiro.

Mas nesse caso ainda havia opção melhor: o Cabo Daciolo, que até tem um posto da hierarquia militar para mostrar antes do nome.

Pelo menos, que se saiba, ele não é adorador de torturadores, nem fã de ditaduras, nem adepto de rachadinhas, nem fantoche de Trump, nem comparsa de milicianos, nem irresponsável perante uma pandemia. Mas também não tinha um máquina de fake news por trás.

Tirar o PT, nada a dizer, repitamos novamente.

Mas #elenão Brasil.

Correspondente em São Paulo

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